Mayra Tavares Gil de Souza (*)
Em anos eleitorais, temas complexos costumam ser rapidamente atravessados e enviesados pela polarização. Sustentabilidade é um deles. Ainda há quem a associe apenas ao meio ambiente ou a uma determinada corrente política, quando, na prática, desenvolvimento sustentável envolve economia, segurança energética, questões sociais, gestão transparente e ética e planejamento de longo prazo que contribua para o real progresso de uma nação.
Despolitizar o tema não significa retirar a política da discussão, mas compreender que existem desafios que ultrapassam governos e ideologias. É legítimo divergir sobre os caminhos, o papel do Estado, os instrumentos econômicos ou os modelos de regulação. O que não deveria ser ignorado é o impacto dessas decisões sobre a toda uma sociedade e nação.
Os movimentos macroeconômicos e geopolíticos recentes demonstram de forma clara, o quanto a sustentabilidade perpassa fronteiras e estruturas governamentais e privadas. O conflito no Oriente Médio, por exemplo, pode comprometer rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, essencial para o transporte mundial de petróleo. Uma instabilidade aparentemente distante pode elevar preços de energia, transportes, fertilizantes e alimentos, pressionando inflação, produção e crescimento de diversos países.
A nível nacional, o exemplo das enchentes no Rio Grande do Sul, e em tantos lugares afetados recentemente pelo El Niño, mostra que mudanças climáticas também evidenciam essa interdependência e exigem dos governos uma atuação preventiva e que olha a gestão de riscos e oportunidades de forma intencional e estratégica.
Um desastre ambiental se transforma rapidamente em crise econômica e social, afetando infraestrutura, empresas, agricultura, habitação, saúde, empregos e contas públicas. Sem planejamento, prevenção e articulação entre municípios, estados e governo federal, os impactos tornam-se ainda maiores. O mesmo ocorre com migrações provocadas por guerras, países decadentes em suas estruturas econômicas e políticas (como Venezuela e Cuba) ou em desastres naturais como no Haiti. Esses movimentos pressionam cidades e países a responderem a novas demandas por emprego, moradia, educação e saúde, e precisam ser gerenciados com a devida diligência e gestão dos impactos sociais.
É nesse contexto que sustentabilidade e eleições se encontram. A pergunta não deveria ser apenas qual candidato defende determinada pauta, mas quais propostas conseguem preparar o país para desafios e oportunidades de efetivo desenvolvimento que continuarão existindo independentemente do resultado das urnas.
Governos mudam, mas temas como segurança energética, adaptação climática, desenvolvimento social, infraestrutura, ética e transparência, e redução das desigualdades permanecem em pauta. Por isso, algumas agendas precisam ser construídas como políticas de Estado, com continuidade e visão de futuro. Empresas, poder público, academia e terceiro setor têm papéis complementares nesse processo.
Despolarizar o debate não significa eliminar divergências, mas elevar a discussão. Podemos discordar de termos que tentaram aprisionar em bolhas. Mas o que não podemos é ignorar que crises ambientais, sociais, econômicas e geopolíticas não escolhem ideologia antes de produzir seus efeitos. As eleições definem governos, enquanto o desenvolvimento sustentável, ajuda a definir as condições em que uma sociedade viverá nas próximas décadas.
(*) Mayra Tavares Gil de Souza é especialista em desenvolvimento sustentável, governança e estratégia, com mais de 20 anos de experiência. É alumni da Universidade de Oxford e sócia-fundadora da SEED Consultancy.
