Soraia Schutel (*)
Admitir uma dúvida, reconhecer um erro ou pedir ajuda deveria fazer parte de uma rotina de trabalho saudável. Mas, em muitos ambientes empresariais, a competência ainda é associada à ausência de falhas. E, quando é assim, qualquer gesto de vulnerabilidade pode ser interpretado como fraqueza.
O profissional começa então a medir o custo de se expor. O que posso perder se disser que não sei? O que acontece se admitir que errei? Como serei percebido se pedir ajuda?
Quando buscar auxílio ou orientação passa a ser confundido com falta de competência, o silêncio se torna uma forma natural de proteção. Isso custa caro para a empresa, porque reduz a possibilidade de aprender, rever decisões, discordar com segurança e colocar problemas reais na mesa.
Uma pesquisa da Aon e da TELUS Health mostra que 63% dos brasileiros entrevistados temem sofrer limitações profissionais caso o empregador saiba de um problema de saúde mental. Esse dado dá a dimensão do problema e ilustra o fato de que, falar sobre o questões de saúde mental, ainda pode ser percebido como algo que ameaça carreira, reputação e confiança.
Dizer que a empresa está aberta ao diálogo não basta.
A cultura empresarial aberta à essas questões aparece, de fato, na reação da liderança quando alguém erra, discorda, demonstra insegurança ou admite que precisa de ajuda. É nesse momento que as pessoas entendem se aquele ambiente é seguro ou não.
Por isso, a formação de lideranças precisa incluir autoconhecimento, leitura das próprias reações e compreensão do seu impacto nas relações. Quem lidera também precisa reconhecer limites, rever respostas automáticas e perceber quando sua forma de reagir favorece o desenvolvimento ou produz retraimento da sua equipe.
Esse acolhimento não significa abandonar responsabilidade, desempenho ou resultado. Significa compreender que ninguém aprende sem errar, amadurece sem rever posições e sustenta relações de confiança em um ambiente onde qualquer demonstração de fragilidade pode gerar um custo profissional.
Temas como vulnerabilidade e saúde mental não avançam porque aparecem no discurso institucional, mas sim quando alguém decide falar e encontra, do outro lado, uma liderança preparada para escutar, acolher a informação e agir com responsabilidade.
(*) CEO e fundadora da Sonata Brasil.
