76 views 4 mins

Da sustentabilidade à regeneração:  oportunidades para o Brasil

em Artigos
quarta-feira, 01 de julho de 2026

Cristiane Moura (*)

Uma das críticas mais recorrentes às práticas ESG adotadas por muitas empresas é que elas permanecem ancoradas em uma lógica defensiva de gestão de riscos. O objetivo é reduzir impactos negativos, atender exigências regulatórias e preservar a licença para operar. A abordagem, embora legítima, foi concebida para um mundo que já não existe.

As crises deixaram de ser eventos isolados para se tornar a condição permanente do nosso tempo. Mudanças climáticas, guerras, desigualdades crescentes, rupturas tecnológicas e a erosão da confiança nas instituições compõem o cenário da chamada permacrise.

Diante dessa realidade as limitações da agenda ESG tornam-se evidentes. O desafio atual é fortalecer a capacidade dos sistemas econômicos, sociais e ecológicos de se renovarem e gerarem valor. A regeneração surge como uma abordagem mais abrangente, cujo objetivo deixa de ser apenas causar menos danos e passa a ser gerar mais vitalidade, resiliência e prosperidade compartilhada.

Empresas, instituições e investimentos devem contribuir para fortalecer os ecossistemas, as comunidades e as relações das quais dependem e ampliar, simultaneamente, o capital econômico, social e ecológico.

Grande parte das iniciativas de sustentabilidade continua concentrada na mitigação de impactos, sem transformar as estruturas que produzem a degradação ambiental e social. A proposta regenerativa busca justamente avançar nessa direção, combinando ações de proteção, reparação, investimento e transformação.

Uma transição para o modelo regenerativo, contudo, demanda que as organizações abandonem modelos de gestão baseados exclusivamente em comando e controle e adotem uma visão sistêmica e intergeracional. Liderar significa criar as condições que permitam o florescimento de pessoas, comunidades e ecossistemas. O líder passa a compreender a empresa como parte de uma rede viva de relações econômicas, sociais e ecológicas

Essa nova lógica também exige coragem das empresas para abandonar deliberadamente práticas e modelos de negócio que permanecem lucrativos no curto prazo, mas geram danos sistêmicos no longo prazo.

E é justamente nesse cenário que o Brasil emerge como um dos protagonistas potenciais da transição regenerativa global.

Temos alguns dos ativos estratégicos mais valiosos do século XXI: biodiversidade, recursos naturais, capacidade agrícola, conhecimento tradicional e uma das maiores reservas de capital ecológico do planeta.

Mas a oportunidade brasileira alcança um espectro mais amplo. O país acumula uma rica tradição de cooperativismo, economia solidária, gestão comunitária e conhecimentos ancestrais que reconhecem a interdependência entre sistemas econômicos e a natureza.

O verdadeiro desafio é transformar esse patrimônio em modelos econômicos escaláveis, capazes de demonstrar que competitividade, inovação, resiliência e bem comum não são objetivos conflitantes, mas dimensões complementares de uma mesma estratégia de desenvolvimento.

A regeneração oferece uma resposta à altura dos desafios de uma era marcada pela permacrise. Nesse debate, poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil para demonstrar que prosperidade econômica, restauração ecológica e fortalecimento do Bem Comum podem caminhar juntos.

(*) Cristiane Moura é líder de inovação e sustentabilidade da consultoria BIP.

CEOs do Brasil: sustentabilidade é o principal desafio para os próximos anos – Jornal Empresas & Negócios