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Da crise à retomada. Reorganizar a operação pode ser um bom caminho para recuperar valor

em Artigos
terça-feira, 22 de setembro de 2026

(*) Luís Fernando Guerrero

O varejo brasileiro atravessa uma fase em que preservar o negócio exige, muitas vezes, coragem para redesenhar a própria empresa. Juros elevados, crédito mais seletivo, consumo pressionado e mudanças no comportamento do consumidor expuseram fragilidades que, em muitos casos, já vinham sendo acumuladas há anos.

De forma geral, o ambiente de negócios no país não anda dos mais animadores. Os números da Serasa Experian ajudam a dimensionar esse cenário. Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em recuperações judiciais, o maior número da série histórica. O número de pedidos de recuperação judicial e de falências de empresas despencou em abril, registrando 60 processos no mês, uma queda de 27% frente aos 82 contabilizados em março, conforme dados divulgados no começo de agosto. Além de diminuir o número de processos, também reduziu o total de empresas envolvidas. Em abril, 141 CNPJs apareceram nos pedidos, ante 184 no mês anterior.

Isso sinaliza um cenário que requer cautela. A melhora pontual ocorre em um contexto em que as empresas ainda convivem com juros elevados, crédito mais restrito e uma atividade econômica em desaceleração. O que temos visto nas últimas semanas, ao acompanhar o noticiário, é que o varejo, em especial, vem sofrendo muito, e a pressão chegou a marcas bem conhecidas. Nomes fortes têm enfrentado processos de reestruturação que revelam diferentes combinações de endividamento, perda de rentabilidade, expansão mal dimensionada e dificuldade de adaptação a um mercado mais competitivo.

O ponto que tem despertado minha atenção é o da importância de conseguirmos ampliar o olhar. Avaliar com critério, claro, não apenas quantas empresas chegaram à crise, mas discutir com especial carinho quantas delas ainda podem sair do quadro problemático.

Recuperação Judicial e Extrajudicial não precisam representar o capítulo final de uma companhia. Quando utilizadas de forma estratégica e no momento adequado, podem funcionar como instrumentos de reorganização, permitindo renegociar passivos, preservar operações viáveis e devolver capacidade financeira ao negócio. É possível encontrar caminhos legítimos e legais para que o ativo da empresa volte a ter saúde, fique limpo de dívidas e atrativo para operações de compra e venda, por exemplo.

A modalidade vem sendo utilizada por empresas de diferentes setores justamente por permitir negociações mais direcionadas e, em determinadas situações, menos custosas e mais ágeis. A segregação de operações, a venda de ativos não estratégicos, a monetização de créditos e a concentração das atividades nas unidades mais rentáveis podem ajudar a separar o que ainda tem valor daquilo que deixou de fazer sentido econômico.

É uma mudança de perspectiva. Em vez de tentar salvar indiscriminadamente toda a estrutura existente, a empresa pode preservar sua operação saudável, limpar o balanço, reorganizar sua relação com credores e criar as condições para receber novos investimentos.

A crise, nesse sentido, pode se transformar em uma oportunidade de reconstrução. No varejo, sobreviver não significa necessariamente voltar a ser a empresa que existia antes da crise. Significa identificar onde ainda existe valor e criar uma estrutura capaz de recuperar tração, confiança e crescimento.

(*) Luís Fernando Guerrero é advogado, Mediador e Árbitro; é sócio gestor na Lobo De Rizzo Advogados, Fellow do Chartered Institute of Arbitrators, professor no IBMEC e PhD em Disputas e Resoluções pela USP.