Wagner Andrade (*)
A transformação tecnológica no setor da saúde atravessa um período de transição profunda. Mais do que a simples adoção de softwares isolados, o mercado percebe que a verdadeira revolução será estrutural, focada na maneira como as instituições organizam suas bases de dados, conectam plataformas e fundem a inteligência artificial aos seus fluxos operacionais.
Esse movimento ganhou contornos nítidos durante a HIMSS Global Health Conference & Exhibition 2026, o maior fórum mundial de inovação na área, onde ficou claro que a IA está evoluindo para um modelo muito mais autônomo e intrínseco aos sistemas hospitalares.
Nos últimos anos, a saúde absorveu a primeira onda dessa tecnologia através da IA Generativa, que atuou principalmente como uma assistente cognitiva capaz de sintetizar prontuários e otimizar a documentação clínica.
Agora, surge um novo paradigma: a IA Agêntica (Agentic AI). Diferente de suas predecessoras, essa tecnologia consegue executar tarefas em fluxos de trabalho complexos, interagindo com diferentes sistemas e tomando decisões condicionais em processos administrativos ou clínicos.
Na prática, a inteligência artificial deixa de ser um acessório de consulta para se tornar uma camada funcional da infraestrutura hospitalar, automatizando desde agendamentos e triagens até a análise de prontuários e autorizações de procedimentos.
Essa aceleração tecnológica responde a uma pressão financeira global crescente. Atualmente, a saúde consome cerca de 10% do PIB em muitas economias avançadas, chegando a 16% nos Estados Unidos e mantendo-se na faixa de 9% a 10% no Brasil.
Três pilares sustentam essa urgência: o envelhecimento demográfico, com a população acima de 65 anos devendo dobrar até 2050; o aumento das doenças crônicas, responsáveis por 70% das mortes globais; e o fator econômico, já que os custos do setor crescem habitualmente acima do PIB nacional.
Nesse contexto, a IA é a ferramenta chave para a eficiência, mas seu sucesso depende da qualidade dos dados. Sem informações clínicas estruturadas e interoperáveis, a inteligência não opera com segurança.
Historicamente fragmentados, os sistemas hospitalares sempre sofreram com “ilhas de informação”, mas o avanço de padrões como o FHIR tem permitido que a interoperabilidade se torne o alicerce da inteligência operacional.
O Brasil exemplifica bem esse desafio: com um investimento anual de US$ 230 bilhões, o país apresenta um cenário de contrastes, onde hospitais de ponta coexistem com regiões de infraestrutura limitada. Assim, a próxima fase da transformação digital não será definida por aplicativos soltos, mas pela arquitetura de sistemas que integram dados e pessoas. Os hospitais do futuro competirão pela excelência de suas plataformas digitais e pela capacidade de coordenar o cuidado com suporte de agentes de IA.
Após décadas digitalizando registros, a saúde entra em uma era onde os sistemas não apenas guardam informações, mas participam ativamente da operação do cuidado médico.
(*) CEO da dataRain.
Transformação digital e os 10 pilares do futuro hospitalar – Jornal Empresas & Negócios
