Brasil é o quarto país mais violento para atuar como jornalista

Marcia Ramazzini (*)

A cada cinco dias um jornalista morre no mundo pelo simples fato de estar exercendo a sua profissão.

Diferentemente do que se imagina, países em conflitos apesar da difícil atuação, não são os mais perigosos para a profissão. O Brasil não possuí indicadores próprios, porém, registrou um aumento significativo nos últimos anos. Exemplo disso é que em 2010 o nosso país ocupava o 18º lugar neste ranking. Hoje estamos em 4º lugar, ficando atrás somente da Síria, Somália e Paquistão. Em pleno século XXI, jornalistas estão pagando por defenderem direitos fundamentais – o direito de informação e liberdade de expressão.

Segundo a diretora da Unesco, Irina Bokova, 90% das mortes ficam impunes, ou seja, apenas um em cada 10 casos é elucidado. Os indicadores ainda apontam que a maioria das mortes é por armas de fogo. A maior incidência é registrada em municípios de baixo número populacional geralmente devido a histórias locais. As mortes são um aviso para que assuntos que estão sendo investigados ou divulgados pela mídia parem de ser abordados.

O Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) revelou indicadores do Brasil de 1992 até 2014 por setores de atuação. Os números são assustadores. Do total de mortes dos profissionais de imprensa, 62% foram devido a corrupção, 46% relativos a crimes, 31% por causa da política, 15% por direitos humanos, 4% por causa de negócios, 4% por esportes e, em alguns casos, as categorias foram somadas. Desses profissionais, 46% atuavam no impresso, 38% no rádio, 19% na TV e 15% na internet.

Diversas instituições como Jornalistas sem Fronteiras, International Press Institute, Press Emblem Campaign possuem outros indicadores, porém com critérios de avaliação diferentes. Graças a estes organismos e registros internacionais, essa grave situação já foi discutida pela ONU (Organização das Nações Unidas) e segundo o secretários, Ban Kii Moon, é necessária a criação de um ambiente livre e seguro, que fortaleça a paz, democracia e desenvolvimento do mundo inteiro.

A ONU, inclusive, criou um Plano de Ação para a Segurança de Jornalistas e Questão de Impunidade cujo objetivo é simples: “assegurar que todo jornalista possa exercer seu trabalho com segurança”. Assim, a Organização pressiona para que seus países membros, hajam com mais rigor, criem leis mais severas, diminuindo estes índices e minimizando a impunidade.

A situação é muito grave, pois, vai além dos ataques físicos. Muitos jornalistas estão presos e são ameaçados e, além disso, o índice de crimes sexuais aumentou muito. Os jornalistas também sofrem riscos cibernéticos, com invasões de notebooks e celulares. Com este cenário de insegurança está havendo a aceleração de uma tendência mundial, o aumento de jornalistas freelance, profissionais sem vínculos empregatícios. Ser um profissional autônomo nem sempre é a melhor opção, porém, muitas vezes é a única.

Com tantos riscos e problemas na profissão, levantamos a seguinte a questão. Será que estes profissionais estão psicologicamente preparados? Enfim, cabe a nós, sociedade, cobrar de nossos governantes uma legislação mais severa para minimizar a impunidade para interromper este terrível ciclo de violência, preservar a vida destes profissionais e não termos nossos direitos de acesso a informação cerceados nos levando ao retrocesso. Vivemos em democracia!

Cada jornalista que morre é um dia sem notícia!

(*) – É engenheira civil pela PUC Campinas, engenheira em segurança do trabalho e meio ambiente e mestranda em Saúde Ocupacional pela Unicamp. Tem especializações em Riscos Industriais e Construção Civil. É diretora da Ramazini Engenharia e tem 20 anos de experiência de mercado.

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