A novela TikTok

Vivaldo José Breternitz (*)

O que acontece com o TikTok nos Estados Unidos é uma das coisas mais estranhas já vistas no mundo dos negócios, na área de TI.

Um dos aplicativos mais populares está causando uma batalha política simplesmente por ser de propriedade da ByteDance, uma grande empresa chinesa de tecnologia.

Membros do governo americano manifestam preocupações de que o governo chinês possa forçar a empresa a entregar-lhe informações acerca de cidadãos americanos, além de usar o aplicativo como ferramenta para divulgar propaganda pró-China.

A ByteDance tem tentado afastar essas preocupações, mas sem sucesso. Na busca de uma solução para a situação, uma estranha cena: o principal executivo da Microsoft discutindo com o presidente dos Estados Unidos uma eventual aquisição do aplicativo – imaginemos o ruído que uma situação análoga geraria aqui no Brasil!

Ainda não se sabe como a situação evoluirá: alguns membros do governo prefeririam ver o aplicativo simplesmente banido do país, outros acham que uma venda para a Microsoft ou outro grupo americano seria uma solução aceitável.

O Facebook e o Google não seriam compradores aceitáveis, pois como já tem ferramentas que competem com o TikTok, se o comprassem, estariam dando mais um passo rumo ao monopólio, que é uma preocupação do Congresso americano, com o qual Trump não quer se indispor.

Ao que parece Trump deu um prazo de 45 dias para que a Microsoft decida se compra ou não o aplicativo antes de bani-lo, mas é preciso ver se os chineses estão dispostos a vendê-lo e em quais condições; em situações como essas, é comum que a lógica deixe de prevalecer. Com a aquisição, a Microsoft poderia crescer muito no mercado de publicidade na internet, hoje dominado por Facebook e Google.

De qualquer forma, já começam a surgir preocupações acerca do que pode acontecer com outras empresas chinesas que operam nos Estados Unidos, já que o Secretário de Estado, Mike Pompeo, disse em entrevista que o governo está investigando se essas outras empresas estão fazendo aquilo que o TikTok vem sendo acusado de fazer.

Vale lembrar que entre outras empresas de capital chinês estão a Lenovo, uma das maiores fornecedoras de laptops ao mercado americano, que também é proprietária da Motorola, grande fabricante de celulares, além da DJI, que fabrica os drones Mavic, muito populares nos Estados Unidos.

Evidentemente, além de aspectos ligados à política internacional, estão em jogo as próximas eleições presidenciais americanas e grandes interesses de natureza econômica.

Certamente teremos novos capítulos dessa novela nos próximos dias; será curioso ver como reagirão os chineses, que já estão enfrentando os americanos em outra grande batalha, aquela envolvendo a Huawei e a tecnologia 5G.

(*) – Doutor em Ciências pela USP, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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