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A inteligência precisa de direção

em Artigos
sexta-feira, 16 de outubro de 2026

João Roberto Benites (*)

Somos o país que tem o maior índice de agentes de IA em produção entre os mercados das Américas e superamos a média mundial. Estamos entre os mais avançados na adoção de inteligência artificial para a comunicação com clientes. De acordo com o estudo global The AI Production Paradox, realizado pela Sinch com 2.527 líderes empresariais de dez países, 76% das empresas brasileiras já operam agentes de IA em produção, bem acima da média global de 62% e do índice registrado nos Estados Unidos (67%).

O levantamento, divulgado em agosto deste ano, revela, porém, que a velocidade da adoção vem acompanhada de novos desafios. O Brasil registra uma taxa de 80% de organizações que precisaram interromper ou reverter implementações de IA por questões de governança, acima da média global de 74%.

Apesar desses desafios, os investimentos seguem avançando. Dois terços (66%) das empresas brasileiras planejam ampliar em mais de 25% seus investimentos em IA, índice superior ao registrado nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha. Apenas a Índia apresenta intenção maior de expansão, com 71%. A IA generativa avança da fase de curiosidade e experimentação para aplicações concretas em processos, atendimento, marketing e diferentes frentes da operação.

Esse movimento integra uma transformação digital mais ampla, especialmente em setores como finanças, varejo e telecomunicações, impulsionada pela integração de dados, automação e busca por eficiência. Na prática, a inteligência artificial pode assumir tarefas repetitivas, apoiar análises, agilizar informações e melhorar a interação com clientes e fornecedores, liberando profissionais para atividades que exigem maior análise e tomada de decisão.

Mas a adoção dessas tecnologias exige uma mudança de perspectiva. Digitalizar um processo ineficiente não significa necessariamente torná-lo melhor. Automatizar uma atividade sem compreender sua finalidade pode apenas acelerar desperdícios ou ampliar problemas já existentes.

É nesse ponto que a transformação digital exige uma visão estratégica. Antes de definir qual tecnologia utilizar, as empresas precisam compreender seus processos, identificar gargalos, estabelecer prioridades e definir os resultados que pretendem

alcançar. A qualidade dos dados também assume papel central. Quanto mais as organizações dependem de informações para tomar decisões, maior é a necessidade de dados confiáveis, acessíveis e estruturados. A integração entre áreas deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a influenciar diretamente a capacidade de gestão.

Do ponto de vista da liderança, o desafio não está apenas em acompanhar a evolução da tecnologia, mas em definir onde ela efetivamente pode gerar ganhos para a organização. A experiência mostra que transformações sustentáveis não acontecem apenas pela aquisição de novas ferramentas. Dependem de processos estruturados, objetivos claros e uma cultura preparada para incorporar novas formas de trabalhar.

Estamos diante de uma etapa em que tecnologia, dados e gestão caminham de maneira cada vez mais integrada. Mais do que acompanhar uma tendência, trata-se de preparar as organizações para uma nova forma de tomar decisões e executar o trabalho, utilizando a inteligência artificial com propósito, disciplina e visão de longo prazo.

(*) João Roberto Benites preside Conselhos de Administração de empresas familiares. É também Conselheiro Consultivo da Grant Thornton Brasil e do Hospital das Clínicas de São Paulo.