Thais Medina (*)
Durante anos, aprender a delegar esteve entre as principais recomendações na formação de lideranças. A lógica é simples: à medida que um gestor avança na carreira, menos seu papel deveria estar concentrado na execução e mais na tomada de decisões, na estratégia e no desenvolvimento das pessoas. A inteligência artificial parecia reforçar esse caminho ao reduzir o tempo dedicado a tarefas operacionais. Mas seu avanço começa a produzir um efeito contrário: ao perceber que conseguem fazer mais em menos tempo, alguns líderes estão voltando a assumir atividades que antes delegavam para a equipe. Ora ora… não parece uma loucura?
Uma pesquisa da Afferolab em parceria com a Tera, realizada com 4,3 mil profissionais brasileiros, mostra que 25% dos diretores e executivos C-level deixaram de delegar tarefas porque acreditavam que, utilizando IA, conseguiriam realizá-las mais rapidamente sozinhos.
O dado ganha dimensão diante da velocidade de incorporação da tecnologia. Levantamento da Page Executive aponta que 75% dos executivos brasileiros já utilizam inteligência artificial generativa profissionalmente. Na América Latina, 83% dos líderes entrevistados afirmam que a tecnologia aumentou sua produtividade.
Ser capaz de produzir mais em menos tempo é um ganho, isso é fato. O risco está em confundir produtividade individual com capacidade de liderança.
Pense em um gestor que precisa de uma análise para uma reunião. Antes, ele poderia solicitar o trabalho a alguém da equipe, explicar o contexto, acompanhar o raciocínio e discutir os resultados. Agora, consegue chegar a uma primeira versão em poucos minutos com o auxílio da IA. Olhando apenas para aquela entrega, fazer sozinho parece mais eficiente.
Quando essa lógica passa a orientar a rotina, porém, surge um problema. Um gestor que passou a entregar dez tarefas no tempo em que antes fazia cinco pode parecer mais produtivo. Mas talvez a pergunta relevante seja outra: quantas dessas dez tarefas precisavam, de fato, ser feitas por ele?
Esse ganho de tempo que a IA proporciona não precisa (nem deve!) significar mais uma tarefa assumida pelo gestor. Esse tempo pode ser usado para discutir a análise com quem irá apresentá-la, conversar com um cliente, acompanhar um projeto ou preparar alguém da equipe para assumir uma responsabilidade maior.
A IA pode tornar um executivo mais rápido, mas não necessariamente um líder melhor. Se todo o tempo economizado pela tecnologia servir apenas para que o chefe concentre mais entregas, talvez estejamos modernizando as ferramentas sem modernizar a gestão.
(*) CEO da agência de Marketing e representação de destinos Business Factory e professora na pós-graduação da Fundação Getulio Vargas e Senac-SP.
