65 views 9 mins

A China não é só um país. É um laboratório vivo de estratégia

em Artigos
sexta-feira, 07 de agosto de 2026

Rogério Domingos (*)

A China deixou de ser apenas uma potência industrial para se tornar um dos maiores laboratórios de inovação, gestão e planejamento estratégico do mundo. Compreender como o país pensa e opera deixou de ser apenas uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade para empresários e executivos identificarem oportunidades e tomarem decisões mais consistentes.

Essa percepção ganhou ainda mais força na abertura da edição de 2026 da World Artificial Intelligence Conference (WAIC), em Xangai, o presidente Xi Jinping apresentou a China como defensora de uma nova ordem global para a inteligência artificial. Em seu discurso, defendeu maior cooperação internacional, o fortalecimento de modelos de IA de código aberto e uma governança global mais inclusiva para a tecnologia. Mais do que uma declaração diplomática, a mensagem revela uma ambição estratégica: a China não pretende apenas liderar o desenvolvimento da inteligência artificial, mas também participar com protagonismo da definição das regras que orientarão seu uso no mundo.

O discurso de Xi Jinping não representa uma mudança de rumo, mas a internacionalização de uma estratégia construída internamente. A ambição de projetar essa liderança para a definição das regras globais da inteligência artificial é a mesma sustentada pelos governos locais chineses e que impulsionou a inovação tecnológica do país.

Uma das interpretações mais interessantes sobre esse modelo vem da economista chinesa Keyu Jin, formada em Harvard e autora de The New China Playbook. Ela descreve a China como a “economia dos prefeitos”, uma metáfora que explica a intensa competição entre governos locais. Nesse modelo, províncias e cidades disputam investimentos, talentos e crescimento econômico, enquanto seus prefeitos são avaliados pelos resultados que entregam. Em certa medida, atuam como CEOs responsáveis por acelerar o desenvolvimento de seus territórios.

Essa lógica oferece uma lição valiosa para qualquer organização. Na Actionline, buscamos adaptar esse princípio à gestão dos nossos produtos. Cada solução possui objetivos bem definidos, autonomia para execução e acompanhamento constante de resultados. Quando metas são claras e existe responsabilização pelas entregas, as decisões se tornam mais eficazes e a inovação acontece com muito mais consistência.

Outro aspecto que diferencia a estratégia chinesa é o pensamento de longo prazo. Em The Hundred-Year Marathon, Michael Pillsbury argumenta que a ascensão do país não é fruto de improviso, mas de décadas de preparação estratégica. Em sua interpretação, a China passou anos observando as economias mais desenvolvidas, aprendendo com seus acertos e erros antes de acelerar seu próprio processo de transformação.

Independentemente de concordar integralmente com essa visão, existe um princípio empresarial extremamente útil: antes de reinventar um mercado, é preciso compreendê-lo profundamente. Observar, aprender, adaptar e aperfeiçoar costuma gerar resultados muito superiores aos de simplesmente tentar criar algo completamente novo.

A trajetória da BYD ilustra bem essa lógica. A empresa iniciou sua história produzindo baterias, estudou durante anos os líderes globais da indústria automotiva e desenvolveu competências próprias até se tornar uma das protagonistas da eletrificação mundial. Seu diferencial não foi apenas copiar modelos existentes, mas adaptá-los e inovar sobre eles.

Essa também é a filosofia que buscamos aplicar na Actionline. Sempre que desenvolvemos um novo projeto, nosso ponto de partida é entender quais soluções já demonstraram eficiência nos mercados mais maduros. Em seguida, adaptamos essas referências às necessidades do mercado brasileiro. O verdadeiro diferencial não está em reproduzir uma ideia, mas em construir uma solução melhor para o contexto em que ela será utilizada.

No Brasil, ainda é comum que executivos busquem inspiração quase exclusivamente nos Estados Unidos ou na Europa. Esses mercados continuam sendo importantes referências, mas limitar o benchmarking ao Ocidente significa ignorar uma das maiores fontes atuais de inovação em gestão, tecnologia e modelos de negócios.

Essa percepção não nasceu apenas da leitura de livros ou de pesquisas sobre a economia chinesa. No ano passado, durante minha visita à World Artificial Intelligence Conference (WAIC), em Xangai, pude observar de perto como governo, universidades e empresas trabalham de forma coordenada para acelerar a inovação. Mais do que uma feira de tecnologia, o evento revela uma estratégia nacional que integra inteligência artificial, indústria, infraestrutura e desenvolvimento econômico.

A edição deste ano, tem chamado a atenção por enfatizar ainda mais a liderança da China na construção de uma governança global para a inteligência artificial. Isso demonstra que o país já não disputa apenas a liderança tecnológica, busca também influenciar os padrões internacionais que orientarão essa indústria nas próximas décadas.

Naturalmente, essa ascensão desperta interpretações distintas. Autores como Robert Spalding entendem esse movimento como parte de uma disputa estratégica global, em que infraestrutura, capital, dados e tecnologia se tornam instrumentos de influência internacional. Já Keyu Jin sustenta que muitas dessas interpretações refletem o desconforto diante da consolidação de um modelo econômico diferente daquele liderado pelos Estados Unidos.

Não cabe ao empresário e ao executivo escolherem um lado nessa disputa geopolítica. O desafio é outro: desenvolver a capacidade de observar com espírito crítico, identificar boas práticas e as adaptar à realidade da própria organização. Nem ingenuidade para copiar tudo, nem arrogância para ignorar aquilo que funciona.

As declarações de Xi Jinping durante a abertura do WAIC reforçam uma percepção importante: a corrida pela inteligência artificial já não acontece apenas entre empresas ou modelos de linguagem. Ela também envolve a definição das regras, dos padrões tecnológicos e da governança que moldarão a próxima economia digital.

Para empresários brasileiros, talvez a principal questão não seja escolher entre o modelo chinês ou o ocidental. O desafio é compreender como essas transformações afetam seus negócios e identificar quais práticas podem ser adaptadas à realidade local.

Em um mundo cada vez mais dividido por narrativas geopolíticas, aprender com quem está moldando o futuro tornou-se mais importante do que tomar partido. A China talvez não esteja apenas jogando um jogo diferente, mas sim começando a disputar o próximo tabuleiro antes de todos os outros.

(*) Diretor Executivo na Actionline.