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Serra da Mantiqueira ganha espaço na produção de azeite

em Agronegócio
terça-feira, 31 de março de 2026

Com crescimento estimado acima de 55%, setor projeta safra recorde após perdas climáticas; na Mantiqueira, Vinícola Essenza prevê alta de 50% na produção

A produção de azeite no Brasil atravessou, nos últimos dois anos, um cenário de instabilidade marcado por perdas climáticas, baixa regularidade de volume e dificuldade de planejamento da safra, fatores que pressionaram o produtor e limitaram a previsibilidade do setor. Em uma cultura sensível a variações de temperatura, chuva e janela de colheita, decisões passaram a ser tomadas sob risco elevado, com impacto direto no rendimento e no custo final por litro.

No país, o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) trabalha com a projeção de uma “safra histórica”, com potencial para superar marcas anteriores e ampliar a presença do azeite nacional em premiações e mercados. A estimativa é de crescimento de, no mínimo, 55% na produção brasileira em 2026, após um ciclo recente de queda de volume associada a eventos climáticos no Sul do Brasil.

O avanço ocorre em um mercado ainda dominado por importações, com o Brasil figurando entre os maiores consumidores globais de azeite sem produção equivalente para atender à demanda interna. Na Serra da Mantiqueira, a Vinícola Essenza traduz esse movimento em expansão de volume e ajuste técnico na produção do azeite Mantikir. As oliveiras da marca ficam na Fazenda Tuiuva, em Maria da Fé (MG), com áreas de cultivo e manejo em altitudes que variam entre 1.700 m e 1.910 m, recebendo o título de olival mais alto do mundo.

Na última safra, a Vinícola Essenza produziu cerca de 3 mil litros de azeite premium na propriedade e projeta, para 2026, um volume de até 4.500 litros, o que representa um aumento de 50%. “O ganho de volume está ligado à maturidade das plantas e à capacidade de leitura do ambiente. A produção de azeite exige decisões em tempo real, e a evolução técnica permite reduzir incertezas ao longo do ciclo”, afirma Herbert Sales, proprietário da vinícola.

A operação na propriedade de Herbert depende do acúmulo de dias de sol entre janeiro e fevereiro e, por isso, pode começar no fim de fevereiro ou na primeira quinzena de março. O período médio de colheita no olival mais alto do mundo é de 40 dias, com manejo diário ajustado ao clima e ao estado de maturação.

Esse intervalo entre colheita e processamento é um dos principais fatores técnicos da produção, sendo que a extração deve ocorrer poucas horas após a colheita para evitar degradação da fruta, com impacto direto na acidez e na estabilidade do azeite. No caso da Vinícola Essenza, o controle desse processo permite alcançar níveis de acidez significativamente inferiores ao limite de 0,8% estabelecido para azeites extravirgens.

“A qualidade do azeite começa no campo, mas se define na velocidade da extração. Trabalhar com baixa acidez depende de controle total do processo, desde a colheita até o lagar”, afirma Herbert Sales.

Esse padrão técnico tem sido reconhecido em competições internacionais, que passaram a incluir o azeite premium brasileiro entre os destaques globais. A Vinícola Essenza figura no guia como o “Melhor do Mundo em produção Limitada” no Evooleum Top 100, referência mundial do setor, além de acumular premiações no Terraolivo International Olive Oil Competition, onde obteve o título “Best of Brazil”. A produção também foi reconhecida no London International Quality Olive Oil Competition, além de resultado “O Melhor do Hemisfério Sul” no Concurso Internacional de Azeite Virgem Extra CA Ovibeja, de Portugal.

A estrutura do olival em produção reúne 3.500 oliveiras, dentro de um total de 6.000 plantas, em uma propriedade de cerca de 51 hectares. A idade média das plantas é de cinco anos, e o portfólio atual de variedades inclui Arbequina, Coratina, Grappolo, Koroneiki, Picual e Maria da Fé, com Frantoio e Oleana previstas para entrada em produção.

O rendimento entre azeitona colhida e azeite extraído varia ao longo do ciclo produtivo e impacta diretamente o resultado econômico da safra.

“Nos primeiros dias de colheita, quando a azeitona ainda apresenta menor concentração de óleo na polpa, o rendimento costuma ficar entre 10% e 12%. Isso significa que, a cada 100 quilos de azeitona processados, são obtidos de 10 a 12 litros de azeite. Do meio até o final do ciclo de colheita, com avanço da maturação e maior concentração lipídica na fruta, o rendimento pode subir para 14% a 15%. Nesse estágio, os mesmos 100 quilos de azeitona podem gerar 14 a 15 litros de azeite”, esclarece o produtor.

Essa variação é relevante do ponto de vista econômico porque impacta diretamente o volume final produzido e o custo por litro extraído. Quanto maior o teor de óleo na fruta, maior a eficiência industrial da extração.

A lógica de terroir na Serra da Mantiqueira combina altitude, amplitude térmica, relevo e manejo, com efeito direto sobre ritmo de maturação, teor de óleo e decisão de ponto de colheita. “O terroir aqui pede precisão: colher cedo demais muda rendimento; colher tarde demais muda perfil; a escolha do dia define o azeite”, afirma Herbert Sales.

Além da produção de azeite premium, a Vinícola Essenza integra vinho e charcutaria em sua proposta de enoturismo com experiências voltadas a degustação e visitação, conectando o trabalho no campo ao consumo final. A operação turística tem base em Santo Antônio do Pinhal (SP).