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Exportar mais não basta: armazenagem define qualidade e valor dos grãos

em Agronegócio
terça-feira, 01 de setembro de 2026

Variações de temperatura, teor de água e umidade do ambiente podem comprometer a classificação, a estabilidade e o valor comercial de grãos, sementes e ingredientes antes do embarque.

O desempenho do agronegócio brasileiro no comércio exterior não depende apenas da quantidade produzida. Entre a colheita e o embarque, grãos, sementes e ingredientes agrícolas precisam manter características de qualidade, estabilidade e segurança compatíveis com as exigências do comprador.

Nesse intervalo, os produtos passam por etapas como recebimento, limpeza, secagem, beneficiamento, armazenagem, expedição e transporte. Falhas nesses processos podem provocar alterações no peso, no odor, na aparência, na classificação e na condição sanitária dos lotes.

O desafio se torna mais relevante diante da pressão sobre a infraestrutura. Segundo o Anuário Agrologístico 2026 da Companhia Nacional de Abastecimento, a primeira safra de grãos deve alcançar 218,2 milhões de toneladas, diante de uma capacidade de armazenagem a granel estimada em 202,3 milhões. A diferença representa um déficit nominal de 15,9 milhões de toneladas.

Esse déficit não significa que todo o volume excedente será perdido, pois parte da produção é processada, comercializada ou transportada durante a colheita. Ainda assim, a limitação reduz a flexibilidade logística e amplia a necessidade de preservar adequadamente os produtos que permanecem estocados.

“Quando falamos de exportação, volume é apenas uma parte do resultado. O comprador também espera regularidade, rastreabilidade e cumprimento das especificações acordadas. A armazenagem precisa acompanhar esse padrão de exigência”, afirma Sven von Borries, CEO da Thermomatic do Brasil, empresa especializada em controle de umidade e microclima.

Armazenagem também interfere no resultado comercial
Além de proteger a qualidade, a disponibilidade de armazenagem pode influenciar o momento da comercialização. Pesquisa encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e realizada pela Esalq-Log/USP com 1.065 produtores rurais, no fim de 2022, mostrou que 40,8% dos entrevistados obtiveram ganhos entre 6% e 20% com o uso de armazéns, em comparação com o preço médio praticado durante a colheita.

Os resultados, divulgados em 2023 e novamente apresentados pela CNA em debates sobre armazenagem no Congresso em 2025, mostram que a estrutura adequada permite organizar o escoamento e buscar períodos mais favoráveis para a venda. Essa vantagem, porém, depende da conservação do lote.

Alterações ocorridas durante a armazenagem podem provocar descontos, reclassificação, necessidade de beneficiamento adicional, redirecionamento para outro uso ou recusa do produto.

“Um lote pode manter praticamente o volume e, ainda assim, perder valor. Mudanças no odor, na aparência, na integridade dos grãos ou na condição sanitária podem alterar sua classificação e reduzir o preço recebido”, afirma Francisco Américo Cassano, consultor e professor de Relações Econômicas Internacionais da Universidade Santa Cecília.

Cada estrutura exige uma estratégia
A preservação da qualidade varia conforme o produto e o sistema de armazenagem. Nos silos e graneleiros, os principais cuidados estão relacionados ao teor de água dos grãos, à secagem, à temperatura da massa, à aeração, à limpeza e ao controle de pragas. Já em armazéns convencionais, salas de sementes e depósitos com produtos ensacados ou acondicionados em big bags, a umidade do ambiente pode exercer influência mais direta sobre embalagens e mercadorias.

Sementes, farinhas, farelos, rações, café, cacau, castanhas, amidos, temperos e condimentos são produtos higroscópicos, capazes de trocar umidade com o ambiente. Quando expostos a condições inadequadas, podem apresentar empedramento, perda de fluidez, mudanças de textura, deterioração ou desenvolvimento de fungos. Em sementes, as oscilações também podem comprometer o vigor e a germinação. Em cafés, castanhas, cacau e condimentos, alterações sensoriais podem afetar aroma, aparência e aceitação comercial.

Produção de grãos deve chegar a 306,4 milhões de toneladas | Jornal Empresas & Negócios