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Com 15 milhões de produtores rurais, agroecologia ganha força e transforma a agricultura familiar brasileira

em Agronegócio
terça-feira, 28 de julho de 2026

Aos 45 anos, o agricultor Rogério Negoseki, de São José dos Pinhais (PR), não se imagina fazendo outra coisa além de cultivar a terra. Filho de agricultores, ele até tentou seguir outros caminhos na juventude, mas voltou para o campo por vocação. Hoje, produz batata-doce, abóboras, morangos e está implantando novos pomares com pitaya, uva e ponkan (também conhecida como tangerina ou mexerica). Mais do que manter a tradição da família, ele busca inovar para garantir o futuro da propriedade.

Há mais de duas décadas vivendo exclusivamente da agricultura, Rogério acompanha de perto as mudanças no campo, desde as transformações do mercado até os desafios impostos pelo clima. Mesmo diante das dificuldades, nunca pensou em abandonar a atividade que aprendeu ainda na infância ao lado da família. Agora, sonha em ver a filha seguir seus passos, ela pretende cursar Agronomia e dar continuidade ao trabalho na propriedade.

“Eu costumo dizer que quero morrer como agricultor, só não quero morrer com uma enxada na mão. Quero trabalhar na agricultura buscando tecnologias, novos manejos de produção e tudo o que agregue valor para que a gente possa sobreviver disso. Mesmo sabendo que nem sempre é valorizada e que dependemos do clima e do mercado, é isso que eu quero fazer”, conta.

Para Rogério, produzir alimentos vai muito além da geração de renda. O agricultor conta que a própria família é a primeira consumidora daquilo que sai da lavoura, o que reforça sua preocupação com a qualidade da produção. Em casa, a filha cresceu colhendo frutas diretamente da estufa, sem receio de consumir alimentos recém-colhidos.

“Eu vejo minha filha comendo nosso morango sem nenhum tipo de defensivo. Ela saía de casa, ia até a estufa, colhia e comia. Eu ficava tranquilo porque sabia exatamente o que ela estava consumindo”, comenta.

Para ele, a agroecologia também representa uma mudança de mentalidade no campo. Em vez de buscar apenas maior produtividade, o agricultor acredita que produzir com menos defensivos, menor custo e mais qualidade pode ser um caminho mais sustentável.

A trajetória de Rogério reflete a realidade de milhões de agricultores familiares brasileiros que, mesmo diante dos desafios impostos, seguem investindo em práticas mais agroecológicas para garantir renda, preservar o meio ambiente e produzir alimentos de qualidade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de 15,1 milhões de produtores rurais. Destes, aproximadamente 3,9 milhões são agricultores familiares, responsáveis por 77% dos estabelecimentos agropecuários do país e por empregar cerca de 10,1 milhões de pessoas na agricultura familiar.

Entre esses agricultores está Juciara de Lima Silva, que vive uma realidade bastante diferente da de Rogério, mas compartilha do mesmo propósito de produzir alimentos saudáveis. No nordeste brasileiro, em Caruaru (PE), a agricultora de 36 anos enfrenta diariamente um dos maiores desafios do semiárido: a escassez de água. Mãe de três filhos, ela produz hortaliças sem agrotóxicos, mantém um quintal produtivo e cria galinhas caipiras, apostando na produção de alimentos saudáveis como forma de gerar renda e qualidade de vida para a comunidade.

No sítio onde vive, a rotina é marcada pelo cuidado diário com a horta e os animais. Em uma região onde a chuva é escassa, produzir exige criatividade, persistência e muito planejamento. Ainda assim, Juciara escolheu investir em uma produção totalmente livre de agrotóxicos, acreditando que alimentos saudáveis também representam mais qualidade de vida para quem produz e para quem consome.

“A maior conquista é saber que posso fazer aquilo que amo. Criar e produzir alimento saudável. Estou fazendo o que gosto e vendo isso trazer resultados para mim”, diz. Ela complementa que produzir no Sertão exige persistência. “A dificuldade que encontramos é a falta de água. Precisamos comprar água para conseguir produzir. Isso nos entristece, mas nada faz com que o verdadeiro agricultor desista. Vamos dando nosso jeito, captando água para continuar plantando e levando alimento saudável para a mesa das pessoas”.

Além dos desafios do clima, Juciara também enfrenta barreiras por ser mulher no campo. Para ela, a presença feminina na agricultura familiar precisa ser cada vez mais valorizada. A agricultora também chama a atenção para outro desafio, que é manter os jovens no campo. Para Juciara, investir na agricultura familiar também significa criar oportunidades para que novas gerações permaneçam produzindo alimentos. “Precisamos de políticas públicas que fortaleçam cada vez mais o agricultor, principalmente as mulheres e os jovens. Se a juventude não plantar, infelizmente vamos sofrer muito no futuro”, acrescenta.

Formar agricultores em agroecologia e economia solidária | Jornal Empresas & Negócios