
Difícil, mas é possível se reverter a destruição
Redação
Investir em pesquisas, dividir o conhecimento, acessar investimentos e, ainda, provar que os alimentos da agricultura regenerativa são mais nutritivos. Estes são alguns dos desafios para acelerar a transição no campo. “Fizemos uma guerra contra a natureza, nas décadas de 1950/60, conseguimos mais alimentos, mas o modelo se esgotou. Precisamos de interação entre os seres vivos e o tempo está se esgotando”, ensina o professor Ricardo Abramovay. Já a diretora estratégica para a América Latina na Naia Trust, Analí Bustos alertou para o fato de que não pode existir agronomia sem ecologia. “Precisamos devolver muita biologia para o solo, a fim de buscar o equilíbrio, com muitas boas práticas de agrobiodiversidade”, arrematou Marion Komper do Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano.
A cidade de Piracicaba (SP) transformou-se em um qualificadíssimo palco científico ao sediar o “Fórum Internacional de Agricultura Regenerativa – Acelerando a Transição”, no Instituto de Pesquisas e Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), no último dia 23, reunindo experts no formato híbrido (presencial e remoto). Promovido pelo Global Landscapes Forum (GLF), em parceria com a Sustainable Agriculture Network (SAN), Imaflora e CABI BioProtection Portal, o encontro deu ênfase à integração de sistemas de conhecimento e evidências científicas (acelerar a transição); modelos de financiamento misto e cadeias de valor sustentáveis (finanças e setor privado); integração de inovação com os saberes tradicionais (inovação, conhecimento e tecnologia); debates sobre o uso e direitos à terra (equidade, direitos e meio de vida); e sistemas agroflorestais como solução para a agricultura regenerativa.

O dr. Geoffrey Hawtin, que recebeu o “World Food Prize 2024”, sendo considerado o “Nobel da Agricultura” pela comunidade internacional, foi um dos convidados deste fórum, que aconteceu no Brasil pela primeira vez. Para ele, ex-diretor-geral de centros do Consultative Group for International Agricultural Research (CGIAR) e ex-CEO do Crop Trust, organização dedicada à preservação da diversidade genética das culturas agrícolas, “as questões de políticas públicas são extremamente importantes”. Ao analisar o resultado do evento, Hawtin pontuou: “Ouvimos muito sobre a necessidade delas (políticas públicas), mas precisamos trabalhar nas recomendações do que essas deveriam ser. Para mim, a necessidade de colaboração também ficou muito evidente, não estamos falando apenas de colaboração na base, no campo, mas em todos os níveis”.
País estratégico
Hawtin também chamou a atenção para a responsabilidade estratégica do Brasil no cenário alimentar mundial: “O Brasil é um dos países agrícolas mais importantes do mundo, e provavelmente se tornará ainda mais importante. Com as mudanças climáticas, vamos precisar cada vez mais que os alimentos cheguem diretamente às pessoas. Podemos ver ao longo do tempo uma necessidade de transformação em parte dos mercados de exportação, destinando menos à pecuária intensiva e mais à alimentação humana direta”, observou.

Analí Bustos (Naia Trust), por sua vez, apontou lacunas estruturais no ensino e nas políticas públicas como entraves à transição regenerativa. “Quando descobri que no meu país (Argentina) e na maior parte do mundo os estudantes de agronomia ou agricultura não estudam ecologia, fiquei espantada! Para mim, não existe agro sem ecologia e não pode existir ensino de agronomia sem ecologia. Um não se separa do outro assim como a cabeça não se separa do resto do corpo”, notou, cobrando uma ação propositiva de parte dos governos: “É essencial que seja promovido um cenário mais favorável, com benefícios e crédito, para que haja interesse por parte dos produtores pela agricultura regenerativa”.
Obstáculos reais
A urgência desta transição, apregoada pelos palestrantes, de uma forma geral – “tenho esperanças que as universidades e as pequenas propriedades se conversem”, diz Geoffrey –, ganhou respaldo também em dados. Ulrich Kuhlmann, cientista-chefe do Centro Internacional de Agricultura e Biociência (CABI), alertou que “o aumento do uso de agrotóxicos no mundo de 2000 a 2023 foi de 70%, segundo dados da FAO, e isto é muito preocupante”. Para ele, a agricultura regenerativa representa uma saída concreta, mas enfrenta obstáculos reais: “Um dos fatores que explicam a baixa adoção dessas práticas é a falta de comprovação de retorno ao produtor, principalmente financeiro. As limitações da extensão rural ao redor do mundo também contribuem para esse déficit. Uma possível solução são as ferramentas de consultoria agronômica online, que podem ser de grande ajuda, diminuindo a distância entre o produtor e o conhecimento e possibilitando uma tomada de decisão mais rápida e uma adoção mais ampla”.

Pesquisas, PPP (Parcerias Público Privadas) e Políticas Públicas ganharam relevância nos debates, bem como a necessidade de se criar índices de medição para ajudar na formulação de políticas e seu posterior monitoramento para a água, solo e ar. Tais KPIs (métricas) levam tempo e custam caro, admitiram os convidados, ao afirmar que a qualidade de vida das famílias dos produtores também precisa entrar na equação, afinal agricultura e natureza não são coisas separadas.
Isabela Pascoal Becker, diretora de Sustentabilidade da Daterra, defendeu uma mudança de paradigma na forma como a sociedade vê a atividade agrícola: “É essencial que enxerguemos a agricultura como parte da natureza, não como um vilão ou algo separado, para que possamos fazer escolhas melhores de forma sistêmica e estrutural” — concluiu.
Agricultura regenerativa avança com projeto-piloto da RTRS – Jornal Empresas & Negócios



