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Os capitalismos são iguais?

em Artigos
sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Benedicto Ismael Camargo Dutra (*)

Desde a crise da dívida externa nos anos 1980, com os juros americanos em 20% para sustentar o dólar, a economia global ingressou numa fase declinante, transferindo grande parte da fabricação para a China. Também ocorreu queda na renda, aumento da dívida pública, precarização geral e dos bens, declínio na educação e no preparo para a vida. Há séculos vem se consolidando uma divisão norte-sul separando nações dominantes ocidentais, os centros de capital, das populações atrasadas da África, Ásia e América Latina. Mas, no geral, estamos passando por uma fase na qual o consumo está perdendo força.

No passado, o trabalho escravo integrou a economia global e moldou a hierarquia que colocou algumas regiões como meras exportadoras de commodities, as quais até hoje se ressentem da dificuldade de sair desse ciclo vicioso. Atualmente, temos dois sistemas, ambos capitalistas, o ocidental de iniciativa privada, e o capitalismo de Estado.

O capitalismo se estrutura definindo quem fornece matéria-prima barata e quem acumula a riqueza final. Em essência, ambos os sistemas buscam ganhos financeiros e aumento de poder. Ambos são causadores de grandes desequilíbrios e confrontos geopolíticos.

O cenário global está mostrando a ascensão do capitalismo de Estado acompanhado do declínio industrial do Ocidente, as crises de endividamento e uma profunda crise de valores. Há o contraste entre a busca incessante pelo lucro imediatista e a sustentabilidade social de longo prazo. O Ocidente assistiu ao esvaziamento do seu “chão de fábrica” em direção a países com modelos de capitalismo de Estado (como a China), que planejam suas economias com horizontes de décadas, e não de trimestres fiscais. Nessas condições, são impactados o tecido social e a soberania econômica. O endividamento na Europa e o empobrecimento da classe média são agravados por um sistema financeiro que drena a riqueza da economia real (produção e trabalho) para a economia especulativa, criando, com as sucessivas altas, uma situação da qual não se conhece o desfecho.

A concorrência internacional pode levar nações ocidentais a tomar decisões semelhantes às de capitalismo de Estado em oposição ao capitalismo no qual a prioridade é maximizar o ganho dos acionistas. Diante do diagnóstico de que as grandes cobiças impedem soluções apaziguadoras, geram, com isso, um “carma” coletivo pesado. A busca por uma solução especial exige alternativas que atuem simultaneamente na estrutura econômica e na consciência humana. A verdadeira prosperidade não mata a galinha dos ovos de ouro, tais como recursos e mão de obra com dosagem certa entre o trabalho e a vida pessoal. Aí está o grande paradoxo do nosso tempo: ao esgotar os recursos naturais e exaurir a força humana de trabalho em nome de lucros imediatos, o sistema mina a própria base que o sustenta. Mas, provavelmente, nenhum dos sistemas atuais teria interesse em realizar mudanças na forma como estão agindo.

Os desequilíbrios são muitos. Os interesses orientam as decisões. Alterações desse panorama requerem mudanças no ser humano, tão envolvido nos seus desejos e nos hábitos seculares. Os sistemas se encontram diante de sérios problemas, o que poderá levar a decisões desastradas. Se a lei da causa e efeito tem muitas consequências pesadas em andamento, as decisões atuais não trazem os resultados esperados. Enquanto as grandes cobiças predominarem, não poderão surgir soluções apaziguadoras e a desarmonia será crescente. Haverá alguma solução que humanize a convivência e as relações entre as nações? Parece que estamos no limite do que podemos fazer.

Pode ser que a natureza impulsione mudanças através de crises fortes que obriguem os seres humanos a se adaptarem a uma nova realidade em busca da verdadeira prosperidade material e espiritual. Como tantas civilizações que entraram em crises e impasses insolúveis, diante da nossa incapacidade de promover as mudanças fundamentais, nos resta manter a serenidade e aguardar o desenrolar dos acontecimentos que poderão irromper de forma drásticas nunca vista para obrigar o ser humano a se adaptar ou perecer. É importante buscar a paz interior e cultivar relações humanas pautadas no respeito, na simplicidade e na solidariedade. Esse é o preparo, prático e espiritual, que qualquer pessoa pode realizar para os tempos severos que estão batendo à nossa porta.

(*) Graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Coordena os sites https://vidaeaprendizado.com.br/ e https://library.com.br/home/ . E-mail: [email protected]