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Desafios de infraestrutura para acesso e competitividade do gás natural

em Economia
quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Especialista Márcio Pinheiro analisa a segurança no abastecimento

O gás natural pode ser produzido no Brasil, comercializado por empresas brasileiras e ainda ter seu preço influenciado por acontecimentos do outro lado do planeta. Isso ocorre porque quase todos os contratos de longo prazo analisados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em maio deste ano utilizavam referências internacionais de preços. O novo Caderno de Estudos sobre Preços de Gás Natural, elaborado pela instituição responsável por subsidiar o planejamento energético do país, indica que o petróleo Brent e o gás Henry Hub devem continuar entre os principais fatores de formação dos valores nacionais até 2036.

A relação entre oferta, infraestrutura e acesso ao mercado é um tema que acompanha a trajetória empresarial de Márcio Pinheiro. Com mais de duas décadas de experiência nos mercados de combustíveis e gás natural, sua trajetória profissional incluiu a criação da Logás, em 2005, empresa dedicada à logística e distribuição de gás natural comprimido (GNC).

Na visão de Pinheiro, a dependência externa deve permanecer no curto e no médio prazo, ainda que o Brasil avance na produção doméstica. “O país possui reservas e projetos capazes de ampliar a oferta, mas o preço continuará sensível ao mercado internacional enquanto os contratos estiverem vinculados a referências externas. Produzir mais ajuda, porém a competitividade depende de infraestrutura, concorrência e condições comerciais”, afirma.

O Brent representa a cotação internacional do petróleo e aparece como o principal indexador dos contratos brasileiros. O Henry Hub, referência para o gás negociado nos Estados Unidos, também integra parte das fórmulas de precificação. Na prática, guerras, restrições comerciais, interrupções logísticas e oscilações de oferta no exterior podem repercutir no custo pago por indústrias e distribuidoras dentro do Brasil.

A EPE estima que o preço médio do gás entregue nos pontos de entrada das redes de distribuição, os chamados citygates, registre um pico em 2026, pressionado pela elevação das cotações internacionais em meio a conflitos geopolíticos. O estudo trabalha com uma possível redução em 2027, caso as tensões diminuam. A partir de 2030, a projeção aponta relativa estabilidade, com leve tendência de alta, até alcançar patamares próximos de US$ 11 por milhão de BTU (Unidade Térmica Britânica) ao fim do período analisado. As estimativas não incluem impostos nem as margens cobradas pelas distribuidoras.

A produção brasileira, porém, ganha espaço na equação. As unidades instaladas no Complexo de Energias Boaventura, no Rio de Janeiro, possuem capacidade para processar 21 milhões de metros cúbicos por dia. Novos projetos de produção offshore também são esperados a partir de 2028. O aumento da oferta interna pode fortalecer a segurança energética e ampliar as alternativas de fornecimento, desde que o gás consiga chegar aos principais centros consumidores. “A autonomia energética não depende apenas do volume retirado dos campos. É preciso criar condições para processar, transportar e negociar esse gás com eficiência”, conclui.