
CEO avalia o que a soberania tecnológica exige na prática além do incentivo fiscal
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) já passou por Câmara e Senado e aguarda sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para entrar em vigor. O programa suspende por cinco anos tributos federais — Imposto de Importação, IPI, PIS/Cofins e PIS/Cofins-Importação — sobre equipamentos destinados a data centers, com renúncia fiscal estimada pelo governo em R$ 5,2 bilhões em 2026. A discussão pública, no entanto, tem se concentrado no debate político e orçamentário do programa. Do lado operacional, a RGL Solutions, integradora de tecnologia especializada em infraestrutura de redes e data centers, avalia o que muda de fato para uma empresa brasileira que decide migrar o processamento de dados da nuvem estrangeira para dentro do país.
“Existe um volume de investimento que estava represado esperando previsibilidade regulatória. Agora que o incentivo fiscal está desenhado, a decisão de onde processar dado deixa de ser só uma conta tributária e passa a ser uma decisão estratégica de onde operar com segurança. Isso muda o jogo para quem já estava pronto para atender essa demanda”, afirma William Cavalcanti, CEO da RGL Solutions.
De acordo com o executivo, hoje, parte relevante das cargas digitais geradas no Brasil ainda depende de processamento no exterior. Se o incentivo fiscal do Redata cumprir seu objetivo de atrair investimento e acelerar a instalação de data centers locais, o gargalo deixa de ser tributário e passa a ser de execução: quem vai estruturar essa migração com governança, segurança e certificação compatíveis com o padrão que a operação crítica exige.
O que muda para a indústria?
Para o setor industrial, a discussão sobre processar dados dentro do país é operacional. Chão de fábrica moderno roda em cima de sistemas que não toleram latência: monitoramento em tempo real, automação de linha, sensores de IoT industrial e sistemas de controle dependem de resposta imediata, algo que processamento no exterior estrutura de forma menos eficiente do que uma operação local bem dimensionada. Além disso, a informação de produção, propriedade intelectual de processo e dados de fornecedores são ativos que muitas indústrias preferem manter sob jurisdição nacional, com auditoria e certificação que comprovem controle, não apenas por exigência regulatória, mas por proteção competitiva.
Nesse contexto, o executivo acredita que se o Redata reduzir o custo de expandir capacidade de processamento no país, o benefício direto para a indústria é ter essa infraestrutura mais acessível e mais próxima fisicamente da operação e menos dependente de nuvem estrangeira para processos que não podem esperar.
“A indústria não compra promessas de soberania digital, mas sim uma confiabilidade operacional. O que o Redata pode destravar, na prática, é a infraestrutura de processamento mais próxima da fábrica, com menos latência e mais controle sobre o dado de produção e isso importa tanto quanto o custo do equipamento”, afirma William.
Certificação como pré-requisito
A RGL Solutions já possui certificação ISO 9001 e tem a ISO/IEC 27001 agendada para outubro de 2026, ambas pela Fundação Vanzolini, um dos organismos certificadores mais reconhecidos do país. Na prática, isso significa que a empresa já opera sob processos auditáveis de gestão de qualidade e está em fase final de adequação a um padrão internacional de segurança da informação, exatamente o tipo de exigência que tende a se tornar barreira de entrada à medida que o Redata avança e a fiscalização sobre quem processa dado sensível no país se intensifica.
“O incentivo fiscal ataca o custo do equipamento, mas quem viabiliza a operação é a cadeia de integradoras e prestadores certificados que sabem estruturar um data center dentro do padrão que o mercado internacional exige. Sem essa camada, o Brasil atrai investimento, mas não constrói competitividade sustentável, finaliza.



