Com maior valorização do equilíbrio entre vida pessoal e carreira, jovens profissionais passaram a questionar modelos tradicionais de trabalho e pressionam empresas a rever benefícios oferecidos
O trabalho de carteira assinada não é o modelo profissional dos sonhos para boa parte dos jovens brasileiros. A pesquisa do Datafolha mostrou que 68% dos jovens entre 16 e 24 anos preferem trabalhar de forma autônoma a seguir o modelo tradicional de emprego com carteira assinada, mesmo que isso lhe renda uma baixa remuneração. O dado evidencia uma mudança de pensamento na relação da Geração Z com o mercado de trabalho, marcada por uma maior busca por autonomia e controle da própria rotina.
“Essa geração valoriza propósito e ambiente de trabalho, mas também entende o reconhecimento financeiro e o espaço para evolução pessoal como parte do pacote de benefícios”, afirma Bell Gama, co-fundadora e CEO da agência pioneira em Employer Branding no Brasil, a Air Branding. Com base em 29 empresas respondentes, a Air Branding produziu uma pesquisa em conjunto com a consultoria SmartCommns, que analisou, em 2025, as expectativas, percepções e dores reais dos profissionais ao longo de uma linha do tempo no mundo corporativo. O estudo avalia dezenas de atributos do ambiente de trabalho utilizando uma escala de 1 a 5 pontos, dividida entre o que o candidato “espera” e o que ele “encontra”. A expectativa mede o quanto ele valoriza e exige determinado fator em um local de trabalho ideal, onde 1 seria irrelevante, e 5 absolutamente essencial.
Sobre as expectativas do cenário do ano passado, foram atingidos níveis recordes, com a valorização da remuneração condizente 4,88 e o pacote de benefícios 4,84 de 5 pontos.
Na análise da CEO, o talento percebeu que “solidez” de uma marca não garante o emprego de ninguém na hora da crise. A resposta a isso foi elevar radicalmente a exigência financeira (notas quase 4,9) para garantir a própria solidez, e exigir autonomia (rotina, decisões, trabalho remoto) para não ficar refém do microgerenciamento. É um cenário onde o profissional dita os termos do engajamento.
“É preciso entender que o vínculo trabalhista com uma empresa é um contrato de troca em que a remuneração é apenas uma parte desse acordo. Outras recompensas como flexibilidade e tempo para a vida pessoal também são prioridades, especialmente para a nova geração. Por isso é tão importante que a legislação acompanhe as mudanças da sociedade, mas que as empresas também busquem novos modelos.”, diz Bell Gama sobre o andamento do processo da redução de jornada.
Sob essa perspectiva, além da redução da escala, modelos como contratos por projeto, trabalho autônomo e relações menos tradicionais podem também parecer mais atraentes e um privilégio para os jovens, devido à insatisfação com as formas atuais de trabalho, como o “CLT”. Nas redes sociais, o termo passou a aparecer de forma pejorativa entre parte da Geração Z. Fica claro que muitos jovens associam o trabalho formal a rotinas desgastantes, baixa remuneração e pouca flexibilidade, enquanto modelos autônomos e digitais são vistos como alternativas de maior liberdade.
Para Bell Gama, para o jovem voltar a ter interesse no CLT, a empresa deve revisitar seu EVP a fim de alinhar os novos benefícios de acordo com a identidade da marca, de acordo com o que os jovens costumam ter preferência, fatores como a remuneração (69%) e cultura (39,1%), com base em seus clientes. “O mercado estabilizou em 2025, mas a conta chegou. Muitas empresas forçaram o retorno presencial após a pandemia, ou endureceram metas nos últimos dois anos. O talento absorveu isso de forma pragmática: ‘Vou trabalhar duro, mas só se pagarem o preço máximo do mercado’. O salto nos gatilhos de saída por falta de autonomia e Work-life balance é a resposta direta contra políticas de controle e perda da flexibilidade conquistada na pandemia”, frisa a consultora.
A Proposta de Valor ao Empregado, ou conhecido como EVP (Employee Value Proposition), entra como uma solução de negócios para os desafios dos gestores sobre a nova metodologia de atuação, que entrará com uma escala 5×2, por exemplo. “Empresas com dificuldades de adaptação, que vão ser afetadas na atração e retenção de talentos-chave daqueles que não são capazes de se adaptar a uma rotina mais flexível, devem elaborar os benefícios alinhados às novas demandas dos mais novos trabalhadores, a fim de criar um alinhamento com os propósitos da companhia e leis com o colaborador. A empresa precisará de uma nova forma de dinâmica da cultura organizacional que deve ser revisada, já que o contato entre funcionários e executivos deve diminuir, e o CEO deve lidar com isso”, aconselha a especialista.
O EVP é um posicionamento de marca empregadora, responsável por traduzir a cultura organizacional em atributos claros e mensagens intencionais ao longo de toda a jornada do colaborador. Como resultado, as organizações ampliam em até 35% sua capacidade de atração de talentos, especialmente no topo do funil, passando a atrair profissionais mais qualificados e, sobretudo, mais alinhados à cultura, o que fortalece a consistência das contratações, potencializa a retenção e gera impacto direto e sustentável nos resultados do negócio, segundo Bell Gama.
Em uma amostragem de 55 “EVP’S” coletados ao longo de 6 anos na consultoria Air Branding, empresas que estruturam sua proposta de valor registram aumento de até 80% no volume de candidaturas. No médio e longo prazo, observa-se uma evolução consistente no posicionamento de marca, refletida em avanços significativos em rankings de reconhecimento, maior engajamento das lideranças e no uso dos benefícios oferecidos como direcionador estratégico do negócio.
“A tendência é que, nos próximos anos, a retenção de talentos esteja cada vez mais ligada à capacidade das empresas de oferecer o pacote completo: remuneração, autonomia, qualidade de vida e espaço para desenvolvimento individual”, finaliza Bell Gama.
Para as empresas, a mensagem é clara: O dinheiro atrai, respeito e autonomia atuam na permanência. Quando a proposta de valor é bem definida, as mudanças nas formas de trabalho não vão afetar as bases da empresa.

