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Importações viram debate sobre competitividade e pequenos empreendedores

em Destaques
quarta-feira, 17 de junho de 2026

A discussão sobre importações de baixo custo foi reduzida durante meses a um debate simplista sobre “defender a indústria nacional”. Em 2026, porém, o tema já ultrapassou essa caricatura. O que está em jogo é a escolha entre enfrentar os problemas estruturais do país ou continuar usando imposto para proteger setores que perderam competitividade. Quando uma economia precisa encarecer artificialmente o produto estrangeiro para preservar parte de sua indústria, o problema não está no concorrente externo. Está na incapacidade de criar um ambiente interno eficiente para produzir, vender e inovar. O consumidor brasileiro virou financiador involuntário dessa conta.

Os números mais recentes ajudam a desmontar a narrativa protecionista. Segundo a Receita Federal, a arrecadação federal alcançou R$ 2,886 trilhões em 2025, maior valor da série histórica, com crescimento real de 3,65% em relação ao ano anterior. Em tese, um aumento dessa magnitude deveria vir acompanhado de melhora consistente na competitividade nacional. Mas isso não aconteceu. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria mostrou que o faturamento da indústria de transformação cresceu apenas 0,1% em 2025, praticamente uma estagnação. O contraste deixa evidente que o problema da indústria brasileira não é falta de arrecadação nem ausência de proteção estatal.

Se o governo arrecada mais e o setor industrial continua sem força, o gargalo está em outro lugar. O Brasil mantém um sistema tributário complexo, logística cara, insegurança regulatória e um ambiente operacional que pune quem produz localmente. Taxar importações não corrige nenhuma dessas distorções. Apenas reduz a pressão competitiva sobre empresas pouco eficientes. O efeito prático é perverso: em vez de incentivar modernização, produtividade e redução de custos, o país transfere o peso da ineficiência para o consumidor, que passa a pagar mais caro para sustentar setores incapazes de competir em igualdade de condições.

A consequência econômica desse modelo vai muito além do varejo tradicional. O comércio digital internacional deixou de ser apenas uma relação entre grandes plataformas estrangeiras e consumidores finais. Ele se tornou porta de entrada para milhares de pequenos empreendedores brasileiros. Gente que começou revendendo produtos online, operando e-commerce sem estoque próprio e construindo renda com investimento inicial baixo. Dados apresentados pela Receita Federal sobre o programa Remessa Conforme mostram que o próprio governo reconhece o crescimento das transações digitais internacionais e o avanço da formalização dessas operações. Isso significa movimentação de logística, pagamentos, marketing, tecnologia e prestação de serviços dentro do próprio mercado brasileiro.

Quando o Estado aumenta barreiras sobre importações, não atinge apenas plataformas estrangeiras. Reduz margem, escala e capacidade de crescimento de pequenos operadores nacionais que encontraram nesse mercado uma oportunidade de empreender. O discurso de proteção da indústria ignora que parte relevante do varejo brasileiro operou durante anos com margens elevadas sustentadas por baixa concorrência externa. Quando plataformas internacionais pressionaram preços e eficiência, a reação não foi modernizar operação, melhorar logística ou reduzir custos. Foi pedir proteção tributária para preservar mercado.

Os defensores das tarifas afirmam que sem proteção empregos desaparecem e o varejo nacional perde espaço. O problema é que essa lógica cria dependência permanente. Empresas protegidas tendem a postergar inovação e ganhos reais de produtividade porque deixam de enfrentar competição direta. Países que fortaleceram suas cadeias produtivas fizeram exatamente o contrário do Brasil. Investiram em simplificação tributária, infraestrutura e eficiência operacional. O Brasil preferiu transformar imposto em política industrial. O resultado é um mercado menos competitivo, produtos mais caros e uma economia que dificulta justamente o crescimento de quem tenta competir de forma mais eficiente.

O debate sobre importações em 2026 já não trata de proteger a indústria nacional. Trata de decidir se o país continuará sustentando setores acomodados às custas do consumidor e do pequeno empreendedor. A indústria brasileira não será modernizada por tarifas. Será modernizada quando perder a possibilidade de depender delas. Enquanto o Brasil insistir em usar imposto como ferramenta de sobrevivência econômica, continuará criando um ambiente em que inovar é opcional e competir de verdade deixa de ser necessário.

(Fonte: Hugo Venda é CEO da Unicopag e especialista em meios de pagamento e infraestrutura financeira).

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