137 views 6 mins

Entre tributos e governança

em Artigos
quarta-feira, 06 de maio de 2026

João Roberto Benites (*)

A transição para o novo sistema tributário exige uma atuação mais próxima e estratégica de executivos e conselheiros. Não se trata apenas de acompanhar mudanças técnicas, mas de compreender seus impactos sobre o modelo de negócios, a estrutura patrimonial e a competitividade das empresas. A agenda tributária passa a ocupar espaço central nas decisões de alto nível, demandando leitura antecipada de cenários e maior integração entre áreas.

Nos colegiados que integro, estamos todos focados em acompanhar de perto cada eixo dessa nova realidade. Nesse contexto, o papel da liderança se amplia, exigindo preparo, visão sistêmica e capacidade de resposta. Planejar, estruturar e profissionalizar deixam de ser escolhas e passam a ser imperativos para quem pretende atravessar, com consistência, o novo ciclo que se inicia.

Fase de transição
Em 2026, a reforma tributária brasileira entra em fase de transição prática, marcando a convivência entre o sistema atual e o novo modelo. A CBS, em âmbito federal, e o IBS, de competência estadual e municipal, passam a operar com alíquotas de teste, enquanto a regulamentação segue em etapa final. O objetivo central é a substituição de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS, com a promessa de maior simplificação e automatização.

Esse período inicial funcionará como uma etapa de ajustes e calibragem. As empresas começam a se adaptar à nova lógica de incidência tributária de forma gradual, antecipando desafios operacionais antes da plena vigência prevista para 2027. A introdução de mecanismos como a retenção automática de impostos no momento da transação sinaliza avanço no controle fiscal e na redução da sonegação.

Há muito a ser absorvido: novas siglas, dinâmicas e responsabilidades. A transição completa para o novo sistema, baseado no modelo de IVA Dual, será implementada ao longo de uma década, redefinindo cadeias produtivas e formação de preços. Ainda que o impacto inicial seja limitado, já se delineiam janelas de decisão relevantes. Em setembro de 2026, empresas poderão optar pelo novo modelo tributário. Essa escolha exige análise criteriosa, pois pode influenciar o posicionamento competitivo no médio e longo prazo.

A Reforma Tributária inaugura um novo ciclo de exigência para o empresariado brasileiro. O redesenho do sistema fiscal, aliado ao fortalecimento dos mecanismos de fiscalização, impõe maior rigor na condução dos negócios e na organização do patrimônio. A eficiência tributária passa a ser condição de sobrevivência. Ganham destaque temas como gestão patrimonial, governança e planejamento sucessório. O aumento da tributação sobre a pessoa física e a maior rastreabilidade dos ativos levam empresários e famílias a revisitar suas estruturas com urgência. Passa a ser necessidade concreta para empresas que buscam previsibilidade jurídica, eficiência operacional e proteção patrimonial.

A presença em colegiados de grandes empresas me traz a confirmação desse movimento. A discussão sobre estrutura patrimonial e sucessão passou a ocupar posição central nas agendas estratégicas, refletindo a crescente complexidade regulatória. Mais do que mitigar impactos fiscais, esse processo revela fragilidades historicamente negligenciadas. A concentração de ativos na pessoa física expõe o patrimônio a riscos relevantes, como disputas sucessórias e descontinuidade dos negócios. A governança bem estruturada estabelece critérios claros, separa papéis e fortalece a organização como instituição. Isso reduz conflitos e amplia a capacidade de adaptação. Sem a correta transição, algumas empresas podem não sobreviver à próxima. O desafio é estratégico, humano e organizacional.

Por outro lado, organizações que investem em governança e sucessão apresentam maior resiliência e melhor desempenho. O movimento de profissionalização e busca por parcerias indica evolução consistente. Em um ambiente menos tolerante à improvisação, a capacidade de antecipar movimentos e estruturar governança torna-se determinante. Empresas que se organizarem estarão mais bem posicionadas para preservar patrimônio, garantir continuidade e sustentar crescimento. Planejar, estruturar e profissionalizar deixam de ser escolhas e passam a ser imperativos para quem pretende atravessar, com consistência, o novo ciclo que se inicia.

(*) Preside Conselhos de Administração de empresas familiares. Atua como Conselheiro Consultivo da Grant Thornton Brasil e do Hospital das Clínicas (SP). É conselheiro certificado pelo IBGC, especialista em expansão estratégica de empresas.

Avanço da IA demanda estratégia de governança – Jornal Empresas & Negócios