
Escolha inadequada de fornecedores e falta de planejamento logístico estão entre as principais falhas que comprometem custos, prazos e a rentabilidade nas importações
Importar da China pode parecer um atalho natural para ampliar margens em um ambiente de pressão de custos. E, de fato, tem sido. O aumento do volume de importações no Brasil reflete um movimento claro de empresas em busca de eficiência e competitividade. Mas há um outro ponto nessa equação: a operação, quando mal estruturada, deixa de ser vantagem e passa a corroer resultado.
Dados recentes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram uma corrente de comércio robusta, com superávit de US$ 1,4 bilhão na terceira semana de março de 2026. O número confirma o dinamismo do comércio exterior brasileiro, mas também expõe um efeito colateral relevante. Com mais empresas acessando fornecedores internacionais, cresce também o número de operações mal planejadas.
Na avaliação de Luis Muller, fundador da Asia Source Brasil, a primeira franquia de importação do país, o movimento é consequência direta da pressão por eficiência. Quando o custo interno sobe e a margem aperta, a importação surge como alternativa quase inevitável. O problema é que muitas empresas entram nesse processo sem domínio técnico. E, nesse contexto, o erro não é pontual.
Para o especialista, o dado ganha relevância justamente por evidenciar um movimento mais amplo de mercado, em que a competitividade passa cada vez mais pela estrutura de custos. “Não se trata apenas de volume importado, mas de como as empresas estão tentando se reposicionar. O problema é que muitas entram nesse processo sem domínio técnico da operação”, explica.
Esse cenário cria um contraste importante: ao mesmo tempo em que a importação se torna mais presente na estratégia das empresas, persistem falhas estruturais na execução. “A barreira de entrada diminuiu, mas a complexidade continua a mesma. E é aí que começam os erros que impactam diretamente o resultado financeiro”, conclui Muller.
É nesse contexto que erros aparentemente operacionais ganham peso e passam a impactar diretamente a lucratividade das empresas. Da falta de planejamento financeiro à escolha inadequada de parceiros internacionais, as falhas se repetem com frequência entre negócios que iniciam no comércio exterior sem estrutura. A seguir, Luis detalha os principais pontos de atenção e explica como cada um deles pode comprometer, ou sustentar, o resultado de uma operação de importação.
Ausência de viabilidade – A conta, à primeira vista, parece simples: comprar mais barato no exterior e vender com margem no Brasil. É exatamente essa lógica que leva muitos empresários ao erro. O que fica fora dessa equação inicial são os custos invisíveis, e, muitas vezes, decisivos. Tributos, frete, armazenagem, variação cambial e taxas operacionais redesenham completamente o preço final do produto. Sem essa visão consolidada, a margem projetada deixa de existir na prática.
Escolha de fornecedores – No comércio exterior, escolher fornecedores é uma das decisões mais sensíveis de toda a operação. Na prática, o que se observa é um padrão recorrente: negociações baseadas em preço e confiança superficial. Plataformas digitais, catálogos e trocas rápidas de mensagem tendem a substituir processos mais rigorosos de validação.
Planejamento logístico – Se existe um ponto onde o erro não pode acontecer, é na logística. Ainda assim, ela costuma ser tratada como etapa final, quando na verdade, deveria ser pensada desde o início. Modal de transporte, janela de embarque, sazonalidade e capacidade portuária influenciam diretamente custo e prazo. Um desalinhamento nesse planejamento não gera apenas atraso, mas pode comprometer toda a estratégia comercial.
Estrutura tributária – Poucas etapas exigem tanto rigor quanto a tributária e, paradoxalmente, ainda é uma das mais negligenciadas. Erros de classificação fiscal, enquadramento incorreto ou falhas documentais podem gerar custos inesperados e retenções.
“Tributo não é só custo, é variável estratégica. Quando bem planejado, ele pode melhorar a margem e, quando ignorado, compromete a viabilidade da operação. Por isso, o conhecimento técnico do processo é um pré-requisito na importação”, explica Luis.
Compra por impulso – Por fim, um erro comum surge na importação sem critério claro, reagindo a oportunidades pontuais ao invés de seguir um planejamento estruturado. Na prática, isso acontece quando o empresário decide comprar porque encontrou um preço aparentemente vantajoso ou um produto em alta, sem avaliar aderência ao mercado, giro de estoque ou impacto financeiro da operação. O resultado costuma ser capital parado, margem comprimida ou dificuldade de escoamento.
Mercado externo: quando e como investir na expansão para novos mercados – Jornal Empresas & Negócios



