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A Inteligência Artificial já redefine como mensuramos a aprendizagem

em Mais
sexta-feira, 17 de abril de 2026

Monica Pasello (*)

A inteligência artificial já ocupa o centro do debate educacional. Até agora, grande parte das discussões se concentra em como ela transforma o ensino com novas ferramentas, formatos de conteúdo e possibilidades pedagógicas. Mas uma mudança acontece em paralelo e ainda recebe menos atenção: a forma como entendemos a mensuração da aprendizagem. Se a inteligência artificial já é capaz de produzir respostas completas em segundos, avaliar aprendizagem deixa de ser apenas verificar resultados e passa a exigir a observação de processos como raciocínio, interpretação e construção de sentido, inclusive no que tange o ensino de idiomas.

Toda transformação educacional começa por uma pergunta diagnóstica: o que queremos observar e medir no processo de aprendizagem? Antes de decidir como ensinar, é preciso definir o que importa acompanhar neste processo. Quando conseguimos fazer essa análise, o restante do sistema muda junto. E a inteligência artificial nos coloca exatamente nesse ponto.

Durante décadas, modelos de mensuração educacional foram desenhados para um contexto em que aprender significava acessar informação e demonstrar retenção. Hoje, a IA generativa produz textos, análises e respostas complexas em segundos, e, com isso, torna-se mais do que necessário novos sistemas para compreender a aprendizagem de fato e como ela se dá. A tecnologia não elimina a necessidade de avaliar, mas evidencia limites dos modelos tradicionais.

Em levantamento da RAND Corporation realizado com mais de 1,2 mil jovens entre 12 e 29 anos nos Estados Unidos, o uso da IA para ajudar nas tarefas escolares saltou de 48% para 62% ao longo de 2025. Ao mesmo tempo, 67% dos estudantes afirmaram acreditar que o uso excessivo dessas ferramentas pode prejudicar o desenvolvimento do pensamento crítico.

Nesse cenário, a pesquisa volta ao centro da discussão educacional. O que vemos é a necessidade do uso de inteligência artificial ser tratado como continuidade de décadas de investigação sobre aprendizagem e mensuração educacional. Nesse sentido, já encontramos no mercado parcerias acadêmicas, que buscam aproximar pesquisa e prática, traduzindo evidências em aplicações concretas para instituições e organizações.

Uma das principais conclusões dessas discussões é que processos avaliativos tendem a deixar de ser eventos isolados para se tornarem acompanhamentos contínuos. Em vez de registrar apenas um momento de desempenho, passam a oferecer sinais ao longo do tempo sobre o progresso, as dificuldades e o desenvolvimento de competências. Com o apoio da inteligência artificial, também se torna possível criar avaliações de forma mais ágil, adaptar o nível das atividades conforme o desempenho dos estudantes e acompanhar o processo com mais segurança e confiança nos ambientes digitais.

A IA torna esse modelo viável. Sistemas adaptativos ajustam níveis de dificuldade em tempo real e ampliam a capacidade de criar instrumentos consistentes, mantendo critérios de validade e comparabilidade. Mais do que eficiência tecnológica, trata-se de aproximar a mensuração da realidade diversa dos aprendizes.

Ao mesmo tempo, surgem responsabilidades proporcionais ao impacto dessas tecnologias. Resultados diagnósticos influenciam trajetórias acadêmicas e profissionais, o que exige sistemas transparentes, auditáveis e supervisionados por pessoas. A confiança continua sendo elemento central, independentemente da tecnologia utilizada.

Outro efeito desse cenário é a necessidade de desenvolver alfabetização em inteligência artificial. Não apenas saber usar ferramentas, mas compreender seus limites e interpretar resultados de forma crítica. No campo da proficiência linguística, por exemplo, exames amplamente utilizados no mercado internacional, como o TOEIC, passam a coexistir com ambientes profissionais em que a comunicação ocorre cada vez mais mediada por tecnologia. Medir o domínio de um idioma passa também por compreender como indivíduos utilizam competências comunicativas em contextos digitais e híbridos.

A questão central, portanto, não é o que a inteligência artificial fará com a educação, mas como especialistas em aprendizagem e mensuração irão utilizá-la para compreender melhor o desenvolvimento humano, o objetivo que sempre esteve no centro da educação.

(*) CEO da TOEIC Brasil.

Como estimular a busca pela aprendizagem e não pela nota – Jornal Empresas & Negócios