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A bolha de IA deve mesmo estourar…

em Tecnologia
sexta-feira, 05 de dezembro de 2025

Eduardo Porter é um é um jornalista e escritor especializado em economia, política e sociedade, que passou por veículos como The Wall Street Journal, Bloomberg e The Washington Post – atualmente escreve no The Guardian e mantém uma newsletter no Substack, uma plataforma que permite a escritores, jornalistas e criadores de conteúdo divulgarem seus trabalhos.

Vivaldo José Breternitz (*)

Recentemente produziu um texto em que traça paralelos entre Corrida do Ouro na Califórnia e a inteligência artificial na atualidade, texto esse acerca do qual vale a pena refletirmos.

A Corrida do Ouro aconteceu entre 1848 e 1855, quando cerca de 300 mil pessoas acorreram à região, vindas até mesmo de lugares tão distantes quanto o Império Otomano. Os garimpeiros massacraram povos indígenas para tomar o ouro de suas terras ao mesmo tempo que impulsionaram as economias de estados vizinhos e até de países distantes, de onde compravam suprimentos.

A Corrida levou a Califórnia, então um território mexicano, a tornar-se um estado americano. Ainda assim, poucos “49ers”, como eram chamados os garimpeiros, enriqueceram; quem realmente fez fortuna foram os comerciantes que vendiam comida e equipamentos a eles. Um desses comerciantes, o imigrante bávaro Levi Strauss, que fornecia calças de denim aos garimpeiros que passavam por São Francisco, talvez seja a figura mais lembrada daquela época.

Hoje, a Califórnia vive outra corrida de investimentos. O “pote de ouro” é menos tangível, mas potencialmente muito maior: a Inteligência Artificial. O que essa nova febre deixará em seu rastro talvez molde o futuro da civilização.

A pergunta que todos parecem fazer é: a IA é uma bolha que deve explodir em breve? Muitos acreditam que sim, incluindo Sam Altman, da OpenAI, o Banco da Inglaterra e o próprio Eduardo Porter. Por outro lado, como explicar o preço das ações da Nvidia, que mais do que dobrou entre abril e novembro, sustentado apenas pela esperança de que a IA produza uma superinteligência capaz de fazer tudo o que os humanos fazem, mas melhor.

A Nvidia, como Levi Strauss em seu tempo, ao menos vende algo concreto: chips de computador. Já as valorizações de empresas como OpenAI ou Anthropic estão baseadas sobretudo em expectativas, talvez sonhos.

O grande desafio é confirmarmos se há realmente uma bolha e, se houver, de que tipo. Será daquelas que devastam a economia ao estourar? Deixará algum legado de valor?

As bolhas compartilham uma característica: investidores apaixonados por um sonho. Mas elas se apresentam em diferentes formas. Há menos de 20 anos, vimos a bolha imobiliária americana, quando os preços das casas atingiram alturas estratosféricas e quase derrubaram o sistema financeiro ao desmoronarem. Pouco antes, foi a bolha das “pontocom”, quando se descobriu que empresas como Webvan e Pets.com não valiam bilhões apenas por estarem na internet.

Bolhas assolam as finanças globais pelo menos desde o século XVII, quando investidores holandeses se apaixonaram e depois se desencantaram pelas tulipas. No século XVIII, franceses, holandeses e britânicos criaram a bolha do Mar do Sul, embalados pela euforia com novas rotas comerciais no Pacífico. O episódio terminou com o Parlamento britânico aprovando o “Bubble Act”, para conter práticas especulativas consideradas perigosas para o comércio e para seus súditos. No século XIX, nos Estados Unidos, houve uma corrida às ações de ferrovias, que gerou prejuízos imensos a cidadãos comuns.

Praticamente toda nova fronteira de investimento gera uma bolha especulativa. Investidores correm para explorar seu potencial, exageram e depois recuam em massa. Assim, a questão mais importante ao avaliar o frenesi atual em torno da IA não é se a bolha vai estourar, mas quando e qual legado deixará. Será que provocará um sistema financeiro debilitado e uma recessão prolongada, como a bolha imobiliária? Ou terá efeito semelhante ao da bolha das “pontocom”, cujo estouro gerou uma recessão relativamente branda e, no fim, legou ao mundo a internet moderna?

A ex-economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, calculou que um crash equivalente ao da bolha das “pontocom” poderia gerar perdas da ordem de US$ 20 trilhões nos Estados Unidos e outros US$ 15 trilhões no exterior, valores suficientes para abalar fortemente o consumo e gerar uma recessão.

O impacto na economia dependerá, em grande medida, de como essa onda de investimentos em IA está sendo financiada, o que ninguém sabe ao certo. A bolha imobiliária foi alimentada por uma explosão no crédito hipotecário, com bancos fazendo empréstimos cada vez mais arriscados – quando os mutuários não conseguiram pagar, houve a quebra.

A IA pode produzir cenário semelhante. Se IA estiver sendo financiada apenas com o caixa de big techs como Alphabet, Amazon, Microsoft e Meta, o risco é menor – mas o preocupante é que essas empresas vêm recorrendo cada vez mais a empréstimos. Segundo a Bloomberg, o setor de tecnologia fez quase US$ 250 bilhões em dívidas só neste ano, um recorde. Analistas do Morgan Stanley estimam que serão necessários cerca de US$ 1,5 trilhão para bancar data centers e hardware se IA continuar crescendo no rimo atual.

Outro ponto é se a IA que o Vale do Silício está construindo terá durabilidade. As ferrovias sobreviveram às bolhas do século XIX e a internet sobreviveu ao estouro das “pontocom”. Mas será que há algo de valor suficiente para justificar a atual euforia? Ferramentas como ChatGPT ou Claude podem elevar a produtividade empresarial, mas não justificam investimentos do porte dos que vem sendo feitos, como afirmam profissionais do calibre de Yann LeCun, ex-cientista-chefe da Meta e vencedor do Prêmio Turing (o Nobel da computação).

Se esses profissionais estiverem certos, grande parte dos investimentos atuais em IA podem se revelar erros monumentais; talvez a Nvidia e todos nós estejamos prestes a aprender, mais uma vez, que vender jeans e pás não significa necessariamente que há ouro nas colinas.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].