Ana Luisa Winckler (*)
Ainda estamos discutindo Inteligência Artificial como se fosse uma disputa de poder: quem manda em quem, o humano ou o algoritmo?
Enquanto isso, deixamos de perguntar o essencial: o que o uso da IA revela sobre a forma como pensamos, sentimos e decidimos dentro das empresas?
Falamos em eficiência, produtividade e automação como se o tema fosse técnico, quando na verdade é ético e emocional.
Treinamos máquinas, mas esquecemos de reeducar humanos.
Antes, o argumento era “a diretoria decidiu”. Agora, “o algoritmo decidiu”.
A diferença? Antes errávamos por intuição. Agora erramos com convicção e dashboard.
Transferimos a confiança das pessoas para os sistemas, e chamamos isso de progresso.
Como lembra Mário Sérgio Cortella,
“A tecnologia só faz sentido quando está a serviço da vida.”
Mas parece que colocamos a vida a serviço da tecnologia.
Quando celebramos relatórios que “tiram 70 % do trabalho humano”, esquecemos de perguntar:
“Tiram também o aprendizado? A autoria? O pertencimento?”
Automatizamos o que dá trabalho, inclusive o pensar.
E o resultado é uma geração de líderes que domina dados, mas desaprendeu a fazer perguntas.
Cortella provoca:
“O desafio não é o que a IA fará conosco, mas o que faremos conosco enquanto a IA faz o que faz.”
A questão não é perder o emprego, é perder o sentido.
A IA pode substituir tarefas, mas não substitui consciência, ética e imaginação.
Nas entrevistas automatizadas, a IA pergunta “o que você fez?”.
O humano pergunta “o que te moveu a fazer?”.
Só o segundo constrói cultura e liderança, e é justamente o que estamos perdendo.
Vivemos a era do “sem tempo, irmão”, em que a velocidade virou virtude e o silêncio, falha de performance.
Mas a pressa não é política de futuro, é política de esgotamento.
“Não somos substituíveis porque somos insubstituíveis”, diz Cortella, e é isso que deveríamos cultivar: propósito, vínculo, ética e presença.
O papel da liderança agora é olhar a IA como espelho, não ferramenta.
Ela reflete nossas incoerências, o quanto valorizamos controle e o quanto tememos vulnerabilidade.
O líder do futuro não será quem domina o ChatGPT, mas quem entende o que ainda é exclusivamente humano.
O legado não será o código. Será o caráter.
A tecnologia pensa; mas só o humano é capaz de refletir sobre o que pensa.
E talvez seja isso o que mais precisemos reaprender, antes que o algoritmo aprenda a fingir que sente melhor do que a gente.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
