Ana Luisa Winckler (*)
Tem gestor que acha que liderar no híbrido é só alternar home office e happy hour.
Mas o “modo figital”, esse Frankenstein entre o físico e o digital, está derretendo líderes que ainda confundem presença com planilha aberta.
A questão não é mais onde você lidera.
É por quantas dimensões você enxerga.
O líder 2D num mundo 4K
Voltamos para o escritório com o discurso de “retomar o contato humano”.
Tradução: queríamos confirmar se ainda mandamos em alguém.
Mas o que realmente falta é profundidade de leitura, não Wi-Fi.
O híbrido escancarou a cegueira dos que só operam em “modo controle remoto”, medindo produtividade por presença e engajamento por silêncio.
Resultado:
- Gente que aparece na tela, mas não se sente vista.
- Reuniões para “alinhar expectativas”, mas ninguém sabe o que sustenta o vínculo.
- E líderes esgotados de tentar sustentar presenças que não se encontram, nem dentro deles.
A leitura prismática: as quatro lentes que faltam
A Metodologia Prismática propõe algo que a tecnologia ainda não simulou:
olhar multifocal.
Enquanto o mundo corporativo vive de filtros, o líder prismático treina o olhar para ver camadas invisíveis.
- Prisma Estrutural – O que se vê
O plano tangível: metas, tarefas, deadlines.
Sem os outros prismas, vira tirania da planilha.
Exemplo: o líder que liga a câmera para “ver se estão trabalhando”, mas nunca pergunta se o time entendeu o propósito.
- Prisma Relacional – O que atravessa
O campo da emoção, da escuta e do afeto organizacional.
Segundo a Harvard Business Review, líderes empáticos aumentam em 76% a segurança psicológica no remoto.
Exemplo: trocar check-ins de status por check-ins de estado (“Como você chegou hoje?”).
- Prisma Simbólico – O que sustenta
Aqui mora o invisível: rituais, linguagem, cultura.
O híbrido sem símbolos vira mosaico de ruídos.
Exemplo: o café no Zoom não é sobre cafeína, é sobre pertencimento.
- Prisma Existencial – O que te move
O raio que falta nos MBAs: propósito real.
A IA pode imitar competências, mas não consciência.
Exemplo: o líder que diz “não sei” e, paradoxalmente, ganha respeito.
Diagnóstico: cansaço de contexto
O novo burnout é de contexto.
A mente não aguenta trocar de sala física e virtual sem trocar de energia.
Estamos todos em modo avião emocional: presentes em todos os lugares, inteiros em nenhum.
A proposta prismática: integrar, não alternar
Ser líder figital não é ser meio de cada coisa.
É ser inteiro em cada presença.
Na prática:
- Faça o que o algoritmo ainda não faz: ler subtexto.
- Use a câmera para ver, não vigiar.
- Crie rituais híbridos com sentido, não com pauta.
- Valorize o silêncio. Ele também trabalha.
- Lidere pelo campo, não pelo chat.
A liderança figital não é mistura de mundos, é maturidade de presença.
É saber que o líder contemporâneo precisa operar entre telas e almas, metas e metáforas.
Porque, convenhamos:
quem não aprendeu a se ver, também não enxerga ninguém.
“No mundo figital, o líder precisa ser menos gerente de agenda e mais guardião de presença.”
— A Outra Sala
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
