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Inteligência artificial é uma bolha?

em Tecnologia
terça-feira, 23 de setembro de 2025

A Bolha da Internet foi um período de euforia e especulação financeira que ocorreu no final da década de 1990.

Vivaldo José Breternitz (*)

Tudo começou com o rápido avanço da internet e a crença de que qualquer empresa com um modelo de negócio online se tornaria extremamente valiosa. Isso gerou um enorme volume de investimentos e uma onda de otimismo que levou os preços das ações de empresas de tecnologia a níveis irreais.

A bolha estourou em março de 2000. O principal índice da Nasdaq, bolsa de valores americana focada em empresas de tecnologia, atingiu seu pico e em seguida desabou – houve uma queda rápida e violenta do preços das ações das empresas da área; milhares de empresas faliram da noite para o dia e bilhões de dólares nelas investidos simplesmente viraram pó.

Alguns dizem que vivemos hoje uma situação semelhante com relação à inteligência artificial (IA), que seria uma bolha; mas nem todos concordam com essa afirmação, que tem sido amplamente debatida.

Os que acreditam que IA vive uma bolha tem como principais argumentos o fato de muitas empresas do ramo, especialmente startups, têm recebido investimentos massivos, alcançando valuações bilionárias mesmo sem um modelo de negócio claramente lucrativo. O valor atribuído a essas companhias parece estar ligado mais ao potencial futuro do que ao desempenho financeiro atual.

Além disso, afirmam que embora IA venha sendo amplamente adotada e a demanda por serviços e infraestrutura de computação de alto desempenho seja gigantesca, nem todas as empresas do setor conseguem transformar essa popularidade em lucro. A maioria delas ainda opera com prejuízo, dependendo de rodadas contínuas de investimento para se manter.
Também se preocupam com o fato de que parte do entusiasmo e do investimento se concentra em poucas empresas líderes, como a Nvidia, que domina o mercado de hardware para IA, e a Microsoft e o Google, que investem pesado em modelos de linguagem. A performance dessas empresas pode não refletir a saúde geral do setor, mas sim a hype concentrada em alguns poucos atores.

Por outro lado, muitos argumentam que o atual cenário da IA é fundamentalmente diferente das bolhas anteriores e que o crescimento é impulsionado por inovação genuína e de alto impacto, diferentemente do que ocorreu à época da Bolha da Internet, quando muitas empresas traziam pouca ou nenhuma inovação real.

Segundo estes, a IA generativa e outras tecnologias de aprendizado de máquina já demonstraram sua capacidade de criar valor real e transformar indústrias inteiras, como a produção de conteúdo, o desenvolvimento de software e a pesquisa científica.

Também afirmam que o ecossistema de capital de risco e os investidores institucionais estão mais maduros do que nos anos 2000. Eles se concentram em investir em empresas que demonstrem um potencial real de crescimento de longo prazo e um modelo de negócios sustentável, o que pode reduzir o risco de uma queda abrupta e generalizada.

Concluindo, pode-se afirmar que, embora o entusiasmo em torno da IA possa, em alguns casos, levar a valuações superestimadas, é mais provável que o setor esteja passando por uma fase de crescimento acelerado e não necessariamente por uma bolha prestes a estourar. O valor da IA é inegável, e a tecnologia já está incorporada em produtos e serviços que usamos diariamente.

A questão central não é se a IA é ou não uma bolha, mas sim qual parte do setor é sustentável e qual é sustentada apenas pela hype – o tempo dirá quanto do atual otimismo é justificado e de que tamanho será um possível ajuste do mercado.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].