Franklin Tomich (*)
A digitalização tornou-se uma tendência universal. Em diversos setores, empresas se apressam para adotar softwares, aplicativos e ferramentas digitais, buscando se posicionar como “techs” no mercado.
Surgem, assim, fintechs no setor financeiro, edtechs na educação, healthtechs na saúde e outras variações. No entanto, é fundamental compreender que há uma diferença significativa entre incorporar tecnologia como suporte operacional e tê-la como núcleo do negócio.
Muitas organizações adotam soluções digitais de forma superficial, sem construir uma estrutura robusta de dados, integração sistêmica ou uma cultura genuinamente orientada à inovação. Ser uma empresa de tecnologia vai além de um rótulo. Exige um modelo de atuação que coloca o digital no centro da estratégia, da tomada de decisão e da criação de valor.
Esse movimento acelerado, embora positivo, tem gerado distorções na percepção do mercado sobre o que realmente define uma empresa tech. Muitas companhias utilizam ferramentas digitais em áreas isoladas, mas mantêm estruturas tradicionais baseadas em mão de obra intensiva, processos manuais e dependência de customizações. Isso cria uma falsa sensação de modernização, quando, na prática, o modelo de negócio permanece essencialmente analógico.
A verdadeira transformação ocorre quando a tecnologia deixa de ser um recurso complementar para se tornar o alicerce da operação e da entrega de valor. Essa situação é especialmente desafiadora em setores ainda marcados por processos manuais e pouco padronizados, onde a adoção digital costuma ser superficial e não modifica a lógica central do negócio. O resultado são empresas que operam como prestadoras tradicionais, mas se apresentam como techs, comprometendo a escalabilidade, a eficiência e, principalmente, a entrega efetiva de valor.
Essa distinção é estratégica. Negócios verdadeiramente tecnológicos colocam a tecnologia como motor da operação, e não apenas como suporte. Eles se baseiam em modelos replicáveis, com baixo custo marginal por cliente e independência da mão de obra para crescer. O valor está no produto construído sobre algoritmos, automações e inteligência artificial, e não na personalização ou na intervenção constante de equipes. É esse modelo que assegura crescimento sustentável, diferenciação no mercado e inovação contínua.
Além disso, equiparar digitalização à transformação tecnológica pode prejudicar a competitividade e a credibilidade de setores inteiros. Estudos da McKinsey indicam que empresas com baixa maturidade digital apresentam desempenho até seis vezes inferior no retorno para acionistas, enquanto a Accenture aponta que negócios com tecnologia no núcleo crescem até 60% mais.
Para superar essa distorção, é preciso adotar critérios objetivos para classificar o que é, de fato, uma empresa tech. Modelos baseados em SaaS, escalabilidade sem custo marginal elevado, inteligência incorporada ao produto e independência do capital humano devem compor essa definição. A tecnologia precisa estar no centro da estratégia e do modelo de negócio, e não apenas como ferramenta acessória.
A solução está menos em prometer inovação e mais em estruturar negócios que realmente entreguem tecnologia como essência e não como adereço. Sem essa distinção clara, o ecossistema perde referências confiáveis, o mercado se contamina com falsas promessas e clientes e investidores enfrentam dificuldades para identificar soluções verdadeiramente escaláveis e sustentáveis. Essa mudança de paradigma é essencial para o amadurecimento do setor e para a geração de valor real.
Portanto, as empresas precisam entender que a verdadeira transformação digital vai além da adoção superficial de ferramentas. Ela passa por modelos escaláveis, automatizados e baseados em produto, o que representa um passo decisivo rumo a um futuro mais inovador, eficiente e competitivo.
(*) Sócio-fundador da Accordia.
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