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Terapia para executivos C-Level: uma estratégia de sobrevivência emocional

em Destaques
quinta-feira, 07 de agosto de 2025

Lucio Eroli (*)

No topo das organizações, muito se fala em resultados, inovação, excelência. Mas pouco, ou quase nada, se fala sobre saúde emocional. O ambiente C-Level é movido por metas, pressão constante e decisões de alto impacto. Mas, sob a superfície das conquistas, há um custo que raramente aparece nos relatórios: esgotamento, solidão e desconexão interna.

A questão é simples e urgente: executivos precisam de terapia. Não como paliativo, mas como estratégia de lucidez, integridade e prevenção. Executivos de alta liderança são treinados para vencer, mas não para lidar com o que vem depois da vitória. O filósofo Søren Kierkegaard já dizia: “A maior doença do ser humano é o desespero silencioso de não ser quem se é.”

Estudo da Yale School of Management (2022), com 1.065 executivos C-Level na Europa e nos EUA, revelou que:
• 72% relatam esgotamento emocional severo;
• 51% consideram deixar seus cargos por questões psíquicas.
• Isso não é fraqueza. É a falência de um modelo que cobra tudo, mas cuida de nada.
• O ego funcional e a alma rachada
No mundo corporativo líquido, como definiu o sociólogo Zygmunt Bauman, “tudo é instável: relações, cargos, vínculos. A exigência é de flexibilidade constante, mas a contrapartida é um ego rígido, endurecido para suportar as pressões. Nesse contexto, muitos executivos vivem com medo: medo de serem dispensados, de perder relevância, de não conseguir manter a imagem. O resultado é um sujeito funcionalmente ativo, mas emocionalmente esgotado.

Nietzsche alertou: “O homem moderno corre para não ter que se encontrar”. Mas, em algum momento, o corpo para. A mente cobra. E o sistema interno exige um acerto de contas.

Um caso emblemático
Uma diretora global de uma farmacêutica, 53 anos, procurou ajuda com sintomas de insônia crônica, ansiedade de alto desempenho e uma sensação crescente de torpor emocional. Vista como promissora para a presidência regional, vivia sob a lógica da performance total, mas sem espaço para si mesma.

Em processo terapêutico, emergiram perdas não elaboradas, culpa por ausências familiares e uma vida afetiva fragilizada. O ponto de virada veio quando percebeu que a filha, adolescente, começava a repetir os mesmos padrões de frieza e auto pressão.
Perdeu o casamento. Mas reconstruiu o vínculo com a filha. Hoje, segue na empresa com menos carga, implantou um comitê de saúde emocional e se tornou uma liderança mais empática e conectada.

Terapia não é luxo. É inteligência emocional aplicada.
Mais do que cursos de liderança ou treinamentos de alta performance, o que muitos executivos precisam é de um espaço de escuta verdadeira. Um ambiente seguro para se despir das armaduras corporativas e encarar aquilo que foi sendo silenciado por anos.
Estudo da American Psychological Association (2021–2023), com 3.400 executivos, mostrou que:

• 43% reduziram o nível de cortisol com acompanhamento terapêutico;
• 27% aumentaram sua empatia na tomada de decisões;
• 38% relataram melhora no sono e clareza mental;
Aqueles com sessões regulares eram quatro vezes mais satisfeitos com a vida do que os que buscavam ajuda pontualmente. Terapia, nesse contexto, não é apenas cuidado pessoal. É estratégia organizacional de longo prazo.

E se o sucesso for só uma fuga?
Blaise Pascal escreveu: “Toda a infelicidade dos homens se deve a uma única coisa: não saberem permanecer em repouso dentro de um quarto”. Executivos evitam a terapia porque ela exige pausa. E pausar, em um mundo que glorifica produtividade, parece inaceitável. Mas a verdade é que quem não para por escolha, acaba parado por colapso.

Como lembrou Viktor Frankl: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como. Mas quem vive apenas o como, uma hora implode por não saber por que começou”. O legado real de um executivo não está nos KPIs, nem no valuation da empresa. Está nas relações que reconstrói. Nos filhos que voltam a enxergá-lo como pai ou mãe. Nos colegas que o reconhecem como humano, não apenas como função.

Se você chegou até aqui, talvez já saiba o que precisa fazer. Porque o maior sucesso que alguém pode alcançar… É não precisar mais fingir.

(*) Psicanalista, Neurocientista e Executivo de Inovação. Criador do Plano B e do Programa Jovens Extraordinários.