717 views 5 mins

Cigarrinha das raízes: ameaça crescente para cana-de-açúcar

em Agronegócio
terça-feira, 08 de abril de 2025

Apesar das projeções indicarem um processamento de 612 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2025/26 do Centro-Sul do Brasil, segundo dados divulgados pela DATAGRO, esse volume representa uma queda de 1,4% em relação à safra anterior, reflexo dos impactos causados por incêndios e condições climáticas adversas. No entanto, a presença da cigarrinha das raízes e sua ligação com a escaldadura das folhas (doença bacteriana) que representam riscos adicionais para os canaviais, podendo comprometer ainda mais a produtividade no próximo ciclo.

Especialistas alertam para a necessidade de um controle eficiente a fim de evitar prejuízos expressivos ao setor sucroenergético. Segundo a pesquisadora científica do Centro de Cana do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Leila Luci Dinardo-Miranda, apesar da redução recente das populações devido a períodos mais secos, a praga não deve ser negligenciada, ainda mais porque a cigarrinha das raízes continua sendo relevante nos canaviais em razão das condições favoráveis proporcionadas pelo manejo da cana. “A colheita mecanizada de cana crua deixa a palha no solo, mantendo umidade, o que favorece a incidência do inseto. Além disso, algumas variedades de cana são mais suscetíveis à praga”, explica Leila.

Danos da cigarrinha vão além do campo
As ninfas atacam as raízes e os adultos se alimentam das folhas, injetando toxinas na planta, o que leva ao amarelecimento e seca das folhas. Em variedades suscetíveis, o colmo (tipo de caule que emerge acima da superfície do solo em segmentos compostos por um nó e um entrenó, que se constitui num reservatório onde, em condições favoráveis, é acumulada grande quantidade de sacarose) pode secar completamente, reduzindo o teor de açúcar, aumentando a fibra e dificultando a extração industrial. Além disso, quando os colmos começas a secar, formam microfissuras que facilitam a entrada de fungos e bactérias, podendo causar também a podridão vermelha. Isso gera problemas na indústria, como a contaminação dos processos durante a extração do açúcar.

A colheita mecanizada de cana crua deixa a palha no solo, mantendo umidade, o que favorece a incidência do inseto. Além disso, algumas variedades de cana são mais suscetíveis à praga

O engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA, Marcos Vilhena, reforça o impacto econômico do inseto. “O controle inadequado pode gerar uma queda de 30% do TCH por hectare, podendo chegar até 50%. Em regiões como Ribeirão Preto, onde a produtividade é mais alta, em torno de 130 toneladas por hectare, o prejuízo pode ser bem significativo. Essa porcentagem de quebra e o preço da tonelada da cana em torno de R$ 150,00 significam uma perda financeira de R$ 4.500 por hectare”, alerta.

Escaldadura das folhas: um novo desafio
A escaldadura das folhas, causada pela bactéria Xanthomonas albilineans, compromete a absorção de água e nutrientes pela planta. Embora conhecida desde 1940, a doença ganhou destaque com a mecanização da colheita, que pode facilitar a sua disseminação entre as plantas.

Estudos recentes do IAC confirmam que a cigarrinha das raízes atua como vetor da doença, tornando ainda mais essencial a necessidade de controle desse inseto. Essa descoberta reforça a importância do uso de mudas sadias e de boas práticas de manejo para evitar a propagação da doença, pois ela também afeta a produtividade de forma significativa.

O avanço da cigarrinha das raízes e sua relação com a escaldadura das folhas impõem novos desafios ao setor sucroenergético. No entanto, com estratégias de manejo adequadas, investindo na qualidade das mudas e no uso de tecnologias modernas, é possível minimizar os impactos e garantir a produtividade dos canaviais.