J. B. Oliveira

Haviam ou havia?

 

J. B. Oliveira

    

                                                                                                                                                             

Na primeira página de um grande jornal diário de São Paulo, leio, do lado direito:

 

“Mesmo com a queda do número de usuários de planos de saúde em razão da crise econômica, o volume de ações contra as operadoras bateu recorde em 2017, segundo pesquisa da Faculdade de Medicina da USP. No Tribunal de Justiça do Estado de SP, foram 30.117 decisões de primeira e segunda instâncias no ano. Em 2011, HAVIAM sido 7.019”.

 

Em seguida, leio do lado esquerdo:

 

“No ano passado, 233 pessoas entraram para o clube dos bilionários do mundo, onde já HAVIA 1810 ultrarricos. É a maior alta no número de indivíduos com patrimônio acima de US$ 1 bilhão desde que a “Forbes” iniciou a lista, em 1987. Há 43 brasileiros, 12 deles estreantes. Cinco têm riqueza igual à da metade da população do país”!

 

Pronto. Esta feita a confusão. Para muitos, não há diferença entre as duas formas de uso do verbo haver: eles as usam sempre no plural: HAVIAM! E pior ainda: HOUVERAM!

 

Qual é então a diferença?

 

Para responder corretamente, vamos revisitar Dona Gramática e uma de suas três divisões: a Morfologia. Ali estão as dez classes de palavras, uma das quais é o Verbo. Este, por sua vez, se classifica em: regular, irregular, anômalo, defectivo, abundante e auxiliar.

 

Auxiliar, como o nome deixa bem claro, é um verbo que auxilia a conjugação de outro. Há quatro verbos auxiliares essenciais: ser, estar, ter e haver. (Estes são os essenciais. Quaisquer outros verbos que atuem como auxiliares são classificados como auxiliares acidentais). Quando uma construção verbal usa o verbo auxiliar, temos uma conjugação composta, formada pela união de um verbo auxiliar com o verbo principal.

 

O nosso verbo haver pode funcionar como principal ou como auxiliar. Quando funciona como verbo principal, ele recebe as mesmas flexões do demais:

 

Eu havia

Tu havias

Ele ou ela havia

Nós havíamos

Vós havíeis

Eles ou elas haviam.

PORÉM, há um detalhe: com o sentido de EXISTIR, o verbo haver fica na 3ª pessoa do singular!

 

(Na verdade, o verbo haver, como verbo principal conjugado, quase não é usado)

 

No exemplo concreto, em “já HAVIA 1.810 ultrarricos”, haver tem o sentido de existir. A frase equivale a “já existiam 1.810 ricos”. Então, o verbo haver NÃO VARIA, FICA NO SINGULAR!

 

Em outra situação, quando o verbo haver funciona como AUXILIAR, é ele que “carrega o piano”: sofre todo o trabalho de passar pelas flexões, enquanto o verbo PRINCIPAL fica paradinho numa das três chamadas “formas nominais do verbo”.

Vamos ao exemplo tirado do jornal: “Em 2011, haviam SIDO 7.019”.

Aqui o verbo principal é o verbo SER, colocado na forma nominal particípio.

HAVER está auxiliando-o e por isso passa por todas as alterações da conjugação:

 

Eu havia SIDO

Tu havias SIDO

Ele havia SIDO

Nós havíamos SIDO

Vós havíeis SIDO

Eles HAVIAM SIDO

 

Simplificando: todas as vezes que o verbo HAVER tiver o sentido de EXISTIR, ele ficará paradinho, na TERCEIRA PESSOA DO SINGULAR, em qualquer tempo: presente, passado ou futuro.

HÁ muitas estrelas no firmamento. (Existem muitas estrelas no firmamento)

HOUVE várias explosões nucleares. (Existiram várias explosões nucleares)

HAVIA muitas pessoas naquela sala. (Existiam muitas pessoas naquela sala)

HAVERÁ grandes manifestações políticas no país. (Existirão grandes manifestações no país)

HAVERIA razões para a greve do metrô? (Existiriam razões para a greve do metrô?)

Ficou mais fácil agora, ou ainda HÁ dúvidas?

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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