J. B. Oliveira

“Esse corretor mais atrapalha do que ajuda”!


                           

                                                                                                                          J. B. Oliveira

 

Já ouvi e já li isso muuuuuuuuitas vezes. E não tiro a razão de quem tenha dito tal frase! Afinal, é horrível você confiar no corretor e ele só lhe criar problemas! Eu próprio já passei por esse dissabor. Escrevi o nome de meu amigo e colega no Conselho de Curadores da Fundação Santos=Dumont e vejam só no que deu! Ele, que é Vice-Almirante, e já foi Comandante do Oitavo Distrito Naval, chama-se Carlos Afonso Pierantoni Gamboa. Pois é, acabei de escrever Gamboa e o corretor “corrigiu” para Gambá! Em outras ocasiões, eu escrevi “fragrante” – de fragrância, perfume – e ele fez o favor de “consertar” para flagrante... Coloquei “à saciedade”, e ele grafou “à sociedade”...

 

Já deu para perceber que esse corretor que faz trapalhadas, é o “corretor de texto” ou “corretor automático de texto”, presente nos meios de comunicação internética. E não é dele que vamos falar!

 

O foco deste artigo, porém, é um outro corretor, especial, que tem até um dia, o 12, dedicado a ele!

É o Corretor de Seguros! “Um profissional do ramo securitário certificado, no Brasil, pela Escola Nacional de Seguros e com registro na SUSEP – Superintendência de Seguros Privados. Pode atuar tanto como autônomo, pessoa física, quanto com uma pessoa jurídica, em uma corretora de seguros, e seu trabalho é analisar os custos e benefícios relacionados à situação do segurado, indicar o produto mais adequado às suas necessidades e mediar a relação entre este e a seguradora”.

 

A palavra tem sua origem no vocábulo latino Corrector, que designava um auxiliar da justiça romana que cuidava das finanças da cidade. Para sua formação, a palavra usou o prefixo com, que significa junto, mais rector, “o que dirige, que endireita”, cuja origem é o adjetivo rectus, reto.

Por definição etimológica, portanto, o Corretor tem o dever dirigir, orientar com retidão!

 

Historicamente, sua origem é bem remota.

 

Em meados do século XVI, mais precisamente em 1578, o Brasil vivia uma fase de transições. O sistema de capitanias hereditárias, implantado em 1534, não havia funcionado bem. Das 15 capitanias, distribuídas a 12 donatários, só duas prosperaram: a de Pernambuco, com Duarte Coelho e a de São Vicente, com Martim Afonso de Souza. Tentou-se então, a partir de 1549, a alternativa de governos gerais: Tomé de Souza, seguido de Duarte da Costa e depois Mem de Sá. Com a morte do terceiro titular, em 1572, e de seu sucessor D. Luís de Vasconcelos, Portugal dividiu o Brasil em dois governos: o do Norte, em Salvador (primeira capital do país) e o do Sul, no Rio de Janeiro. A reunificação veio no já citado ano de 1578, de importância particular para nós.

Foi nesse ano que surgiu a profissão de corretor, em Portugal, com o papel de intermediar as relações entre segurados e seguradoras. Nenhum seguro seria válido sem a interveniência do corretor. Sua função se diferenciava da do escrivão de seguros, por ser custeada pelos segurados. Isso garantia ao corretor um rendimento cinco vezes maior do que o de um escrivão. O cargo de corretor era considerado propriedade pessoal e transferível.

 

No Brasil, a atividade teve sua primeira lei em um ano também emblemático: 1964! A lei 4594, de 29 de dezembro daquele já distante ano, abria-se com o este texto:

 

 “Art. 1° O corretor de seguros, seja pessoa física ou jurídica, é o intermediário legalmente autorizado a angariar e a promover contratos de seguros, admitidos pela legislação vigente, entre as sociedades de seguros e as pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado.

Art. 2º O exercício da profissão de corretor de seguros depende da prévia obtenção do título de habilitação, o qual será concedido pelo Departamento Nacional de Seguros Privados e Capitalização, nos termos desta lei.

§ Único o número de corretores de seguros é ilimitado”.

Desnecessário dizer da importância socioeconômica do setor. Basta citar que, em 2016, o mercado segurador movimentou 239,3 bilhões de reais, sem considerar o ramo de saúde complementar. Isso significou 3,9% do PIB brasileiro!

 

Por isso, se eu ouvir de novo alguém dizer que “esse corretor mais atrapalha que ajuda”, vou exigir que explicite: “esse corretor de texto”!

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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