J. B. Oliveira

“Eu quero é rosetar...”

J. B. Oliveira

 

No carnaval de 1947 – isso mesmo: há 71 anos! – a marchinha carnavalesca com esse inusitado título fez sucesso... e armou um banzé! De autoria de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, contou com a interpretação inconfundível de Jorge Veiga, acompanhado pela banda “Soldados Musicais”, de Napoleão Tavares. Sua gravação, pela Continental, ocorreu em 12 de setembro de 1946, tendo seu lançamento sido efetuado em dezembro daquele ano, pelo disco 1575-A, matriz 1601.

Assim era seu começo: “Por um carinho seu minha cabrocha/ Eu vou a pé a Irajá (bis)/ Que importa que a mula manque/o que eu quero é rosetar”. Rosetar significa, originariamente, “usar a roseta”, ou seja, utilizar a rodinha dentada da espora para fazer a montaria andar. Em sentido paralelo, secundário, entretanto, expressa a ideia de prática do ato sexual... Em razão disso, a censura vetou a música, e o disco foi recolhido das lojas.

Ora, a sabedoria popular já disse que “o que é proibido é mais desejado”! Assim, apesar da proibição da venda da “bolacha” no mercado musical, o rádio se encarregou de tornar a marchinha uma das mais cantadas no carnaval de 1947 no Brasil! O sucesso foi tanto, que rendeu até um filme: “Este mundo é um pandeiro”, da Atlântida (companhia cinematográfica fundada em 18 de setembro de 1941 por Moacir Fenelon e José Carlos Burle. Produziu 66 filmes até 1962, quando encerrou suas atividades. Em sua maioria, eram filmes de deboche, as famosas “pornochanchadas”, parodiando os sucessos da filmografia internacional, como: Nem Sansão Nem Dalila; Matar ou Correr e outros). Nesse pastelão, é Oscarito quem interpreta a música, com seu jeito cômico e matreiro.

Na conservadora e moralista sociedade da primeira metade do século XX, a letra maliciosa da marchinha criou alvoroço e caos. O duplo sentido que ela apresentava ofendia a moral e os bons costumes então vigentes, e a tornava inaceitável. Principalmente no seio das famílias tradicionais, nas quais as moçoilas – donzelas pudicas – ruborizavam as faces diante de um mero gracejo. Imagine, então, frente a essa despudorada frase!

Entre os muitos atritos que surgiram em decorrência da composição abusada, um deixou registro trágico na história. O Globo, de 9 de janeiro de 1947, noticiou: “Ontem, pela quarta vez desde que foi lançado, o samba “Eu quero é Rosetar”, provocou um crime. Na Leiteria Aviz, na rua Riachuelo 360, um grupo de rapazes insistiam em cantar a música imoral, e o gerente da casa, Othoniel de Carvalho, cansou de pedir para que eles parassem, em respeito às famílias presentes. Não atendido, ele pegou um furador de gelo e feriu mortalmente um dos jovens, Waldemar José Filho”.

Por outro lado, distante do aspecto dramático do caso acima, não poderia deixar de haver o folclórico, tão comum em nossa tradição tupiniquim. Ele teria ocorrido em região interiorana de Minas Gerais, segundo alguns, ou – com mais possibilidade – do Nordeste, segundo outros. Pouca importância tem esse detalhe, uma vez que o homem do interior brasileiro, seja de que região for, tem as mesmas características fundamentais, com pequenas, quase imperceptíveis diferenças...

Conta-se que, em certo pequeno município, havia um ativo caminhoneiro que, ao ouvir a música carnavalesca, dela gostou tanto que mandou escrever no para-choque de seu caminhão “Eu quero é rosetar”. Saía regularmente de sua cidadezinha no início da semana e só voltava no sábado. Por onde andava, levava a debochada frase à vista de todos.
A tradicional família interiorana se indignou com essa falta de recato e de respeito. Seus representantes mais distintos foram ao pároco, que, de imediato, acatou o pleito e foi solicitar ao caminhoneiro que apagasse aquela expressão imoral.

Ele se recusou, dizendo que apenas estava reproduzindo o que todos ouviam pelo rádio. A queixa da população chegou ao delegado e, por fim, ao juiz, mediante uma ação popular com apelo – sob as penas da lei – a retirar a frase. Entretanto, enquanto o oficial de justiça não conseguia proceder à citação, ele circulava livremente ostentando, como um troféu, a frase ofensiva... Quando, por fim, foi citado e intimado, com prazo reduzido para contestar a ação ou cumprir a determinação da justiça, informou que na viagem daquela semana, passaria por onde havia mandado fazer a inscrição e, voltaria com a situação resolvida, no sábado subsequente.

No dia aprazado, na entrada da cidade, à sua espera estavam a autoridade policial, o padre, os fieis todos, a imprensa local (sim, havia um jornal, publicado sempre que isso se tornava possível e necessário) e a reportagem da emissora de rádio (daquelas ao estilo da rádio Camanducaia, de Odayr Batista: “Falando para a cidade e cochichando para o interior”). É então que desponta, em meio à poeira do estradão, o tão esperado veículo.

O momento é decisivo: ou o caminhoneiro cumpriu a determinação da justiça ou será preso! Atentos ao para-choque, em que estava antes escrito “Eu quero é rosetar”, todos leem “ CONTINUO QUERENDO”!

 

*Dr. J. B. Oliveira, Consultor Empresarial e Educacional, é

Advogado, Professor e Jornalista. Pertence à Academia Cristã

de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo

www.jboliveira.com.br

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