J. B. Oliveira

Jerry Lewis, Ruy Castro e Amar e gostar...

J. B. Oliveira

Na crônica que intitulou “Jerry e Lewis”, publicada na Folha de São Paulo do dia 24 de agosto último, o apreciado e culto Ruy Castro discorre sobre o humorista americano falecido no domingo, dia 20, aos 91 anos. Tece comentários sobre o ator que fez tanta gente – entre elas, eu – gargalhar com suas comédias, marcadas por um humor singelo, caricato, cheio de trejeitos e de caras e bocas. Em seguida, fala do homem Jerry Lewis fora da tela e que, segundo ele e outros comentaristas, era totalmente diferente, ácido, de difícil trato.

Na Veja desta semana, edição 2545, na seção “Memória”, Jerônimo Teixeira o apresenta como “O palhaço amargo”, e diz que Jerry Lewis era “não o palhaço triste do clichê, mas o palhaço amargo”...

Não por mera coincidência, dentre suas muitas produções, o filme de que Lewis mais gostava era “O professor aloprado” (The nutty professor), de 1963, dirigido, protagonizado e coproduzido por ele. Ocorre que ali está nada mais nada menos do que uma paródia do livro “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson, em que o médico, Dr. Jekyll, procurando descobrir uma forma de separar o bem e o mal existentes no ser humano, cria o monstro, Mister Hyde...

 

Essas considerações iniciais são apenas para chegar ao âmago da coluna de hoje: Gostar e Amar...

É que Ruy Castro fecha sua coluna com estas palavras textuais:

 

“O artista Jerry era sublime, mas o homem Lewis, seccionado pelos biógrafos, era egoísta, vingativo, preconceituoso. Ele não era estimado como pessoa – nem seu pai gostava dele. E, segundo esses biógrafos, era só o que ele queria: ser gostado. Sua morte tornará isso possível”.

 

SER GOSTADO? Isso não agride a gramática e a própria eufonia?

 

Por que o nobre Ruy Castro não se valeu do verbo amar? SER AMADO, além de estar na seara abençoada da correção gramatical, é muito mais sonoro (ou eufônico)!

 

Ocorre que o verbo GOSTAR é transitivo indireto, ou seja: exige a presença de uma preposição para ligar o verbo ao seu objeto – no caso, objeto indireto. Raciocina-se assim: “quem gosta, gosta DE alguém ou DE alguma coisa. A Gramática Normativa da Língua Portuguesa é taxativa: não se forma voz passiva com verbo transitivo indireto. Por essa razão, é incorreto dizer “o jogo foi assistido por um milhão de expectadores”.

É bem verdade que esse verbinho danado – o assistir – é transitivo indireto no sentido de ver, presenciar. E é transitivo direto quando significa auxiliar, ajudar! É o que se pode observar nesta frase: “A enfermeira assistiu o médico na cirurgia e depois foi assistir à novela das nove”...

 

Já o verbo AMAR é transitivo direto. O objeto – direto – une-se diretamente ao verbo a que se refere, sem o auxílio da preposição. Assim, “quem ama ama alguém ou alguma coisa”. E é por isso que Dona Gramática permite e abençoa a formação da voz passiva!

Oportuno lembrar aqui o caso do verbo VISAR que, como assistir, pode ser transitivo direto ou indireto, de acordo com seu significado. É transitivo direto – sem preposição e podendo formar voz passiva – quanto tem o sentido de pôr visto, assinalar: “O gerente do banco visou o cheque”. Entretanto, é transitivo indireto, regido de preposição, quando a ideia que transmite é a de objetivar, ter o propósito de, como nestes exemplos: “Maria só visava A uma vida melhor para seus filhos”. “Os mártires visavam À pátria celeste”.

 

Há alguns anos, ouvia uma artista sendo entrevistada em um programa de rádio.

Bem, de algumas delas não se pode esperar grande coisa. Afinal, lá atrás, uma se saiu com esta: “A vida de artista é difícil porque tem muitas dificuldades”. Outra, querendo mostrar seu pendor por literatura, afirmou: “Eu gostava muito de ler dramas, mas agora resolvi mudar de gênero. Vou ler ‘A Divina Comédia’. Uma terceira – essa da área televisiva, e ainda atuando – disse com emoção e convicção: “Minha vida deu uma volta de 360 graus”!

Mas não era a nenhuma dessas que me referia no início deste parágrafo.

A estrela em questão terminou sua “brilhante” entrevista com esta enfática afirmação: “Eu sou feliz porque gosto de meus fãs e sou gostada por eles”.

Pois é, dela eu até poderia esperar esse deslize.

Do culto e letrado Ruy Castro, cronista de um órgão de comunicação de massa do nível da Folha de São Paulo e, como tal, formador de opinião e disseminador da cultura, NÃO!

Li, há muitos anos, esta frase de um educador europeu – alemão, se não me engano – “Toda aula deve ser uma aula de língua pátria”.

Vou além. Para mim, toda comunicação de alguém culto tem de ser uma aula de língua pátria”!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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