
Recentemente, o que parecia ser um voo rotineiro da JetBlue entre Cancún e Newark, quase se transformou numa tragédia.
Vivaldo José Breternitz (*)
Um Airbus A320, já em altitude de cruzeiro, a 35 mil pés, perdeu altitude de forma brusca – felizmente, seus pilotos conseguiram controlá-lo, mas vários passageiros precisaram ser atendidos em um hospital após a aeronave ter feito um pouso de emergência na Flórida.
A causa do incidente não foi imediatamente esclarecida. Dias depois, a Airbus – que chegou a manter mais de 6 mil aeronaves em solo – divulgou uma possível causa: raios cósmicos teriam interferido nos sistemas de computador do avião. Raios cósmicos são partículas subatômicas de altíssima energia que chegam à Terra vindas do espaço – foram descobertos em 1912, pelo físico austríaco Victor Hess.
Segundo especialistas, essas partículas, vindas do espaço ou do próprio Sol em tempestades solares, podem provocar o chamado single-event upset, em termos simples, um “tropeço” digital. É uma mudança de conteúdo não intencional em um dispositivo eletrônico (como uma memória ou processador) causada pelo impacto de uma única partícula energética. Esse fenômeno já foi associado a erros em sistemas críticos, incluindo uma eleição na Bélgica em 2003.
No caso do A320, a falha teria atingido o sistema ELAC (Elevator and Aileron Computer), responsável pelo controle de partes das asas e da cauda. A Airbus informou que está atualizando o software das aeronaves para evitar novos episódios, adotando mecanismos de correção rápida dos valores corrompidos.
Apesar da explicação oficial, alguns especialistas se mostram céticos. “Naquele dia não havia nada de especial em termos de radiação solar”, disse à BBC Keith Ryden, chefe do Space Centre da Universidade de Surrey, no Reino Unido.
Mas se não foram os raios cósmicos, o que teria sido? O episódio faz-nos lembrar Shakespeare, quando seu personagem Hamlet disse haver mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, dando-nos uma lição de humildade diante do desconhecido.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].


