Por que mudei de opinião sobre o trabalho remoto

Marcos Razon (*)

Sempre acreditei muito na ideia de que os funcionários deveriam trabalhar no mesmo escritório que seus colegas e supervisores. Pela minha experiência, este era o modelo que permitia mais colaboração, criatividade e produtividade. Sempre se fez assim, eu argumentava, então por que mudar?

Mas, se nossas experiências recentes de mandar as pessoas trabalharem em casa por causa da covid-19 mostraram alguma coisa, é que há benefícios significativos em permitir que trabalhem remotamente, pelo menos parcialmente.

Eu supervisiono os negócios e as operações da HP na América Latina. Meu time está baseado majoritariamente em Houston, no Texas (EUA), mas, obviamente, trabalhar em nível regional implica muitas viagens pela região para dar suporte em cada país e para visitar parceiros e clientes. Quando não estávamos na estrada, eu preferia que trabalhássemos no escritório a fim de fomentar a colaboração na equipe.

Quando a covid-19 nos forçou a modificar nossa infraestrutura, adotar novas tecnologias e mudar nossa mentalidade coletiva sobre o trabalho remoto, a realidade ficou ainda mais clara. De repente, em questão de poucos dias, a grande maioria de nossos empregados, clientes e parceiros na América Latina estavam trabalhando em casa. E mais: eles estavam fazendo isso com muita eficiência, provando para mim e outras pessoas que o modelo remoto pode funcionar.

Ao parar para pensar nisso, rapidamente percebi que isso significava que podíamos nos adaptar à nova realidade. Ao invés de ter meu time regional inteiro aqui em Houston, podíamos tentar ter alguns integrantes que ficam em outros países trabalhando remotamente, mas colaborando, como temos feito nos últimos 14 meses. Inclusive anunciei, recentemente, meu novo chefe de gabinete e de estratégia/estratégia e planejamento, que fica na Cidade do México.

Não tem como sabermos quando a pandemia e a necessidade de trabalhar em casa vão acabar. Muitos países latino-americanos ainda estão lutando para superar esse terrível vírus. Mas acredito que, mesmo conforme as coisas começarem a voltar ao normal, o local de trabalho que conhecemos terá mudado para sempre.

Nem todo mundo vai voltar para o escritório, por regra ou por opção. De fato, já estamos ouvindo muitas organizações ao redor do globo dizerem que vão permitir que os empregados trabalhem remotamente pelo menos uma parte do tempo depois que esta crise terminar. Na verdade, uma pesquisa recente da Search Latinoamérica descobriu que 34% das empresas na América Latina planejam adotar políticas que vão privilegiar o trabalho remoto no pós-covid.

Os empregadores estão considerando cada vez mais esse modelo porque sabem que isso pode cortar custos imobiliários e afins sem muito impacto na produtividade dos funcionários. Os empregados, por sua vez, perceberam que gostam porque significa menos tempo gasto em deslocamento e mais tempo focado no trabalho e na vida pessoal.

Acho que você verá algumas empresas, como a colombiana Bunny Studio, deixando que as pessoas escolham trabalhar em casa o tempo inteiro. Mas a maioria que fizer uma mudança provavelmente adotará o modelo híbrido, em que os funcionários dividem sua jornada entre o remoto e o presencial. Digo isso porque as pessoas são seres sociais por natureza. Precisamos de algum nível de interação pessoal que as videochamadas no Zoom ou no Microsoft Teams simplesmente não conseguem proporcionar. Além disso, especialistas afirmam que normalmente ficamos fatigados ao tentar interpretar pistas não verbais e socioemocionais em reuniões virtuais, o que fazemos com naturalidade sentados com os outros participantes em uma sala física. Por essas razões, uma sondagem on-line realizada recentemente no México mostrou que 70% dos entrevistados querem passar uma parte de seu tempo trabalhando em casa após o fim da pandemia.

Certamente, possibilitar o trabalho remoto para empregados na América Latina não será uma tarefa simples. Muitos países da região ainda têm que terminar de construir sua infraestrutura digital para tornar isso viável. E nem toda empresa está capacitada financeira ou tecnicamente para viabilizar o trabalho remoto. Da mesma forma, os empregados nem sempre têm computador, conexão ou espaço adequado em casa para conseguir trabalhar efetivamente quando estiverem fora do escritório.

Mas as empresas devem fazer a diferença no que puderem. Tudo indica que a experiência de ter que mandar os funcionários para casa fez com que muitas investissem em tecnologia para viabilizar o trabalho remoto. Por exemplo, 43% das pequenas e médias empresas no Brasil afirmam ter comprado software com recursos de trabalho remoto, segundo pesquisa da Capterra.

A mudança para o trabalho remoto está se acelerando por causa da covid-19. As empresas que ainda não estiverem se ajustando a essa realidade precisam parar imediatamente para avaliar suas capacidades e se preparar para o local de trabalho do futuro. Qualquer coisa menos que isso as deixará descobertas conforme essa evolução ganhar forma.

(*) É Gerente e Diretor Geral da HP Inc. para a América Latina.

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