
A expressão “brain rot” (literalmente, apodrecimento do cérebro) é usada para designar o empobrecimento do pensamento crítico e a falta de concentração gerados pelo uso excessivo de redes sociais, jogos e demais ferramentas digitais, especialmente inteligência artificial generativa.
Vivaldo José Breternitz (*)
Pode-se concluir isso de forma intuitiva: se alguém faz o trabalho por você, suas habilidades pioram com o tempo. Visando testar a validade desse raciocínio, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia pediram a 250 pessoas que escrevessem sugestões a um amigo sobre como levar uma vida mais saudável.
Parte dos participantes pôde usar inteligência artificial, enquanto o restante recorreu apenas ao Google, sem ferramentas de IA. O resultado confirmou a hipótese: os textos produzidos com ajuda da IA foram bem menos úteis do que os escritos manualmente.
O achado reforça conclusões de estudos anteriores. Uma pesquisa da Microsoft já havia indicado que o uso excessivo de IA pode causar atrofia cognitiva. Mais recentemente, um experimento do MIT mediu a atividade cerebral de universitários divididos em três grupos: os que escreveram um texto sem ajuda, os que usaram o Google para checar informações e os que recorreram ao ChatGPT.
Os resultados não surpreenderam: os usuários do ChatGPT apresentaram a menor atividade cerebral, enquanto os que escreveram por conta própria tiveram a mais alta. Mas o dado mais revelador veio logo depois: um minuto após entregar os textos, os estudantes foram questionados se se lembravam de algum trecho do que haviam escrito: aqueles que redigiram sozinhos conseguiram lembrar longos trechos – alguns lembraram o texto inteiro; os que usaram o Google recordaram partes isoladas. Já 83% dos que usaram o ChatGPT não conseguiram citar sequer uma frase.
A falta de memória indica falta de aprendizado, e essa é a grande preocupação. Em resumo: quem deixa que a IA faça o trabalho não retém o conteúdo e não aprende. Como se diz, o cérebro é como um músculo: use-o ou perca-o.
O problema, no entanto, não se limita às ferramentas de IA. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), que analisou dados de quatro anos do projeto ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development), revelou que crianças que usavam redes sociais de forma intensiva apresentaram piores resultados em leitura, memória e vocabulário do que aquelas que não usavam.
Nada disso é novo; há evidências claras que deixar a IA fazer nosso trabalho reduz nossa competência e que as redes sociais afetam a saúde mental, o que, por sua vez, prejudica também a saúde física
Devemos abandonar essas ferramentas? Talvez. É difícil comprovar que algo postado no TikTok, Instagram, Reels ou similares tenha trazido benefícios reais a seus usuários. No caso da IA generativa, contudo, se for usada de forma consciente, ela pode ser útil como apoio à pesquisa, à revisão de textos e a outras atividades, desde que não substitua o processo criativo e que suas respostas sejam sempre verificadas – afinal, todas as ferramentas desse tipo continuam sujeitas a erros e a gerar alucinações.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].



