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La Belva de Torino: um motor colossal

em Tecnologia
segunda-feira, 30 de outubro de 2023

As guerras são tragédias, mas às vezes acontecem nelas episódios curiosos – um desses é narrado aqui.

Vivaldo José Breternitz (*) André Walther Breternitz (**)

Recentemente, Richard Sachek escreveu um texto para o portal Slash Gear sobre os veículos vendidos nos Estados Unidos que dispunham dos maiores motores contemporâneos; no topo da lista está o Dodge Viper V10 de 8.4 litros, cuja produção iniciou-se em 1992.

Mas era um motor pequeno em comparação com o que a Fiat produziu em 1911: um quatro cilindros verdadeiramente colossal de 28,4 litros para equipar seu modelo S76, que foi construído para bater o recorde de velocidade em poder do Blitzen, o Relâmpago, fabricado pela Carl Benz, que atingira 202,7 km/h em 1909.

Dizia-se que o motor do S76, que fora adaptado de um motor de avião, produzia entre 290 e 300 cavalos de potência, o que não é muito para os padrões modernos, mas era impressionante na época. O Ford Modelo T do mesmo ano, por exemplo, tinha apenas 20 cavalos de potência.

Além de seu impressionante motor, o S76 também contava com uma carroceria aerodinâmica, construída com os materiais mais leves disponíveis à época, visando obter a maior velocidade possível; seu peso girava em torno de 1.700 quilos.

Tudo era o mais simples possível: o chassi era muito básico, com eixos dianteiros e traseiros sólidos, transmissão por corrente e, assustadoramente, apenas freios traseiros; essas características levaram o carro a ser chamado “La Belva di Torino”, ou “A Fera de Turim”, em homenagem à cidade italiana onde apenas dois deles foram construídos.

Um dos veículos ficou com a Fiat e o outro ficou com um rico príncipe russo, que contratou o piloto italiano Pietro Bordino para tentar bater o recorde de velocidade. Bordino concluiu que o carro não era seguro a mais de 140 km/h e desistiu.

Ironicamente, o piloto teve um fim triste: em 1928, em uma corrida de rua disputada na cidade italiana de Alessandria, dirigindo uma Bugatti, atropelou um cachorro a 70 km/h e perdeu o controle do carro, que caiu no rio Tanaro. Seu corpo foi jogado para fora (não existiam cintos de segurança), sendo encontrado a algumas centenas de metros rio abaixo.

Em seguida, o príncipe contratou o piloto americano Arthur Duray, que levou o carro a 212,8 km/h, em 1912, na cidade belga de Ostende – mas, devido a irregularidades no registro da tentativa, o novo recorde não pode ser homologado.

Após isso, a história dos dois S76 é obscura: o que pertencia à Fiat foi desmontado após a Primeira Guerra Mundial e os restos daquele que pertencera ao príncipe, acabaram adquiridos pelo colecionador de carros britânico Duncan Pittaway em 2003, sem o motor, que desapareceu. No entanto, em um notável golpe de sorte, Duncan conseguiu localizar o motor do S76 que ficara com a Fiat e o com base em fotos e alguns documentos da época, o carro foi restaurado.

Pittaway tem exibido a Belva di Torino em vários eventos, inclusive no prestigiado Goodwood Festival of Speed, na Inglaterra, onde Matthew Lamb fez a foto que ilustra esta matéria.

Apesar disso ainda há polêmicas envolvendo o S76: um museu italiano afirma que o motor de 28,4 litros é de sua propriedade e foi apenas emprestado ao colecionador inglês para fins de exame; Pittaway nega essa versão e o assunto deverá ser resolvido pela justiça.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor da FATEC SP, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas

(**) Especialista em Gestão de Seguros e Previdência pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atua no Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.