Temos visto cada vez mais frequentemente, jovens afirmarem que, em busca de qualidade de vida, não pretendem ter empregos formais.
Vivaldo José Breternitz (*)
Esses jovens estão perseguindo uma miragem, a de que ganharão muito dinheiro, fazendo só o que gostam, trabalhando pouco em horários flexíveis, ganhando por “job” executado com o uso de inteligência artificial e tecnologias digitais; muito provavelmente, num futuro não muito remoto, vão se ver perdidos, sem uma formação adequada e sem uma carreira consolidada.
O jornalista e professor Paulo Silvestre recentemente publicou em O Estado de S. Paulo um texto muito interessante, ressaltando que na visão desses jovens, a formalidade aprisiona, enquanto a tecnologia empodera, o que os leva a ignorar os riscos trazidos pela busca dessa miragem, da precarização do trabalho à distorção da realidade.
Cresce um discurso nas redes sociais que desvaloriza o “trabalho com carteira assinada” que seria um sinônimo de fracasso na carreira, de condições ruins de trabalho, de ausência de flexibilidade e de desequilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Os jovens que estão ganhando algum dinheiro com esse tipo de trabalho não percebem que muitas empresas, que lucram com a ausência de vínculos trabalhistas, incentivam a demonização do trabalho formal, o que na prática leva à eliminação de direitos, à perda de salário fixo, de férias e de outras garantias, em troca de uma sensação de liberdade.
Paulo Silvestre afirma que a sociedade paga um preço alto por essa nova realidade, pois sem trabalho digno com um mínimo de garantias, o consumo cai, a desigualdade aumenta e o tecido social se esgarça. O que parece moderno e eficiente pode, na verdade, nos empurrar de volta a um modelo de exploração disfarçada, agora com algoritmos no lugar de chefes.
Por isso, é urgente que a legislação evolua. Precisamos garantir direitos mínimos também para quem trabalha em formatos novos, embora esses trabalhadores devam contribuir, como fazem os que trabalham de maneira formal. É inaceitável que a tecnologia seja usada para burlar responsabilidades sociais. A inovação deve servir às pessoas, e não o contrário.
A evolução tecnológica é bem-vinda, mas as pessoas, especialmente as mais jovens, não podem se deixar levar pela busca de uma miragem que, na prática, piora a sua qualidade de vida, enganando-as para que pensem que estão conquistando a liberdade ou que terão ganhos fabulosos.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor e consultor – [email protected].


