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Por que as pessoas estão agindo de forma tão estranha?

em Opinião
quarta-feira, 09 de novembro de 2022

Marco Antonio Spinelli (*)

Em nosso cérebro, temos duas formas básicas de Processamento de Informações: T1 e T2. A primeira forma é mais instintiva, quase reflexa.

Lembro na Copa de 94, jogo das oitavas, Brasil e os donos da casa, Estados Unidos. Leonardo se preparava para bater um lateral, o americano ficou puxando seu braço e tentando tomar a bola. O lateral era do Brasil e o cara não tinha nada que ficar puxando o braço do nosso jogador. Leonardo queria repor o jogo e, quando o cara insistia em puxar o seu braço, tentou sair e bater o lateral, o pentelho continuou atrapalhando.

Quase sem perceber, e sem dúvida sem pensar, Léo soltou um cotovelaço na cabeça do cara, que desmaiou. Foi expulso com as mãos na cabeça, sem poder explicar que não tinha a menor intensão de mandar a nocaute o seu adversário. Essa é a ação de T1: uma reação imediata, geralmente explosiva, que não passa pelo crivo de nosso Juízo.

A reação T2, ao contrário, é pensada, calculada, mesmo numa situação de alta pressão. Lembro de uma vez que estava numa loja. Desci do carro e toquei levemente com a minha porta na porta do carro ao lado. Desceu um senhor mal educado que começou a gritar palavrões como se tivesse destruído seu carro.

Olhei para meu filho ao lado, que na ocasião deveria ter uns cinco anos e estava no banco de trás. Minha vontade era dar uma cabeçada no cara, ou pelo menos uma peitada, mas a decisão, correta, foi deixá-lo se afastar aos gritos antes de abrir a porta e tirar meu filho da cadeira.

Esse é o Processamento T2: o Cortex Pré Frontal e o Cíngulo Anterior calculam e executam a melhor decisão, ou a melhor possível, enquanto o Cérebro Emocional dá cambalhotas de raiva. O nome dessa capacidade, vital para os quadros psiquiátricos de nosso tempo, é a Regulação Emocional.

Estamos vivendo uma época em que, aqui e acolá, vemos cenas inacreditáveis de descontrole e perda da capacidade de Regulação Emocional com explosões inacreditáveis de raiva e agressividade. Uma cliente minha avançou no pescoço de uma chefe, depois de meses de comportamento abusivo (não é boa publicidade para meu consultório).

A deputada Carla Zambelli atravessou a rua com arma em punho para ameaçar um petista que a tinha ofendido. Em plena luz do dia, famílias passando, crianças de mãos dadas com seus pais. Discussões de boteco terminam em tiroteio. Nessas semanas eleitorais não foi incomum ouvir gregos e troianos gritando contra o candidato adversário. A esposa de um dirigente de futebol, do Flamengo, foi às redes sociais falar impropérios contra os nordestinos, que segundo sua visão, elegeram o Lula. Gente, o que está acontecendo?

Estamos sendo bombardeados, nas redes sociais e sobretudo WhatsApp, por mensagens e imagens que estimulam a profundidade de nosso Cérebro Emocional. A técnica é cutucar em nosso Medo e Instinto de Sobrevivência. Se o outro ganhar, vamos ter a implantação de um regime Nazista, ou vamos virar a Venezuela, com comunistas e nazistas pedófilos abusando de nossas crianças.

A sensação de medo, de Ameaça Iminente, desliga os circuitos de racionalidade, permitindo o comportamento impensado, reflexo e direcionado a aniquilar aquele que me ameaça ou ameaça minha família. Seria o equivalente a eu pegar um cano e bater na cabeça do tiozinho malcriado por imaginar que fosse atacar meu filho.

Passamos por um período em que esses circuitos foram ativados e levados ao estresse máximo, gerando reações paradoxais, com pessoas sem antecedente de explosões ou violência. O denominador comum é o desespero quando alguém não compartilha dos memes e fake News da minha Bolha. Como vocês não enxergam que o mundo vai acabar se o tal cara ganhar? Assisti uma aula que mostrou um cara amarrado e amordaçado em um avião, após uma discussão banal com a aeromoça que quase terminou em tragédia.

Está na hora de coçar a cicatrizar as feridas. Diminuir o hiperestímulo. Pacificar ganhadores e derrotados. Explicar que essas cutucadas em nossos Medos e Indignações mais profundos estão tendo um efeito tóxico, separando amigos e famílias, trazendo à tona ódios que não são nossos, ou, se são, precisam ser trabalhados em ambientes protegidos, como uma Psicoterapia. Está na hora da Regulação Emocional virar matéria escolar obrigatória, em escolas, faculdades e corporações. Chega de manipulação de nossos Medos.

A essência do Desenvolvimento Psíquico é criar Consciência. A essência da Psicose Coletiva é transformar todos numa besta, que reage sem pensar.

(*) – É médico, com mestrado em psiquiatria pela USP, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”.