Marketing responsável e os eventos climáticos extremos

Reinaldo Dias (*)

Nos últimos anos estamos presenciando, cada vez com mais frequência, manifestações climáticas extremas acompanhadas de tragédias que afetam as dimensões sociais, ambientais e econômicas das sociedades.

Em sua maior parte, esses eventos extremos estão relacionados com o aquecimento global que provoca as mudanças climáticas. Não há expectativa de melhoria desse quadro a curto prazo, a tendência é pelo agravamento da situação pois as medidas assumidas pelos países para o enfrentamento do aquecimento global demorarão para surtir o efeito esperado ao serem implementadas.

O ano de 2016 superará o ano de 2015 como o ano mais quente da história, e este já havia superado 2014. Somente uma redução radical dos gases efeito estufa (com destaque para os gases carbônico – CO2 e metano – CH4 ) reduzirá a temperatura a níveis aceitáveis. Como consequência os eventos climáticos extremos se manifestarão na forma de tempestades e secas mais frequentes, intensas e de maior duração, nevascas, temperaturas extremas, ondas de calor, incêndios, furacões e tornados, chuvas torrenciais acompanhadas de inundações e vendavais entre outros fenômenos.

Para diminuir os efeitos desses fenômenos climáticos radicais é necessário uma melhoria e adaptação da infraestrutura das cidades que foram projetadas para controlar padrões de chuva do passado. Mas também há necessidade de se assumir com determinação que o problema só será solucionado com a ampla participação de todos os setores da sociedade, não só do poder público. É nesse sentido que a postura adotada pelo Shopping de Campinas deve servir de exemplo e merece comentários de sua posição.

O Shopping Galleria esteve interditado durante dez dias devido aos estragos causados pelos eventos climáticos que atingiram a cidade. Na reabertura a empresa mostrou como o marketing responsável além de ser um instrumento importante na gestão organizacional, pode ser um canal de transmissão e construção de valores positivos para a sociedade.

Em matéria do jornalista Gustavo Abdel (Correio Popular, 16/06, p. A-4) o shopping de forma transparente explicitou as ações a serem desenvolvidas em função dessa nova realidade ao afirmar que “a partir dessa experiência serão estudadas melhorias na resistência e engenharia do prédio para prevenir eventos climáticos futuros”. As ações adotadas pela empresa indicam que a sustentabilidade está integrada à estratégia da organização. Superando a visão tradicional isolacionista, de grande parte do empresariado, de ignorar seu papel na sociedade de enfrentamento dos eventos extremos causados por um modo de produção predatório do ambiente natural.

Destacam-se outras ações de marketing responsável adotada pela organização, entre as quais a distribuição de 3000 mudas de Ipês-amarelos aos frequentadores, doação de 300 árvores adultas para o replantio em toda a área da cidade afetada pelo vendaval, painéis colocados à disposição dos consumidores para deixarem mensagens positivas entre outras iniciativas.

O Marketing responsável é componente essencial da sustentabilidade. Ele pode educar, conscientizar e disseminar valores de respeito ao próximo e à natureza. Nesse sentido a distribuição de 3000 ipês-amarelos tem um significado especial. Esses ipês poderão sempre ser associados à destruição causada pelo evento climático. No entanto de forma bastante positiva. Poderão se tornar símbolos que ultrapassam seu significado original, não serão apenas árvores. Suas flores representarão a resiliência, a capacidade de superação diante da adversidade, a resistência à tragédia provocada pelos eventos climáticos extremos.

As mudas de ipês-amarelos quando florirem, certamente, darão mais colorido à cidade ao abrirem numa mesma época do ano. Só que agora, além da beleza de suas flores, terão história para contar. Carregarão simbolicamente a capacidade de resistir à diversidade, uma resiliência de cor amarela que muitos poderão utilizar para mostrar sua indignação e capacidade de superação ao insustentável modo de produção atual de uso intensivo de combustíveis fósseis responsáveis pelo efeito estufa.

(*) – É professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas. Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Ciência Política pela Unicamp. É especialista em Ciências Ambientais.

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