Impeachment já!

Heródoto Barbeiro (*)

Golpe! O golpe se alimenta das próprias entranhas do país.

Esgueira-se sem freios pelos corredores do senado da nação! Senta-se nas altas esferas da comunidade financeira; lança sua sombra sepulcral contra o próprio umbral do templo da liberdade. Ouça, vozes proféticas soam em meus ouvidos e, haha, entoam o réquiem da grande república. Sua ruína foi selada! Ressuscitado o Lázaro do impeachment.
O senado reuniu-se à noite e o invulgar espetáculo do prédio iluminado atraiu todo olhar e imprimiu em toda mente uma espécie de certeza de que os seus augúrios e suas profecias tinham cabimento. Dessa treva política, o frio cadáver do impeachment saiu outra vez andando. No palácio uma recepção ocorria simultaneamente. O presidente apertava a mão de um convidado, lançava olhares pesarosos e parecia abandonado e sem amigos. Não há homem na face da Terra que poderia ocupar o lugar do presidente e estar tranquilo e contente.
Na manhã seguinte, essa palavrinha, impeachment, estava na boca de todos. Até o mais simplório dos homens sabia que aquele memorável agosto provavelmente seria um desses meses portentosos que se elevam por sobre a história de uma nação como uma montanha em um deserto. Em vez de se abster de sua faina em reverente respeito à memória do Patriarca, costume honrado nessa data natalícia há décadas, o congresso resolveu reunir-se – e trabalhar!
O presidente do senado instruiu a platéia a evitar qualquer manifestação de satisfação ou desacordo, sob pena de expulsão imediata, e a guardar rigoroso e respeitoso silencio. “O presidente vai ser destituído por graves crimes e delitos” disse ele. A multidão de desconhecidos estava à espera do impeachment. Não sabia o que era impeachment, exatamente, mas tinha uma vaga noção de que viria na forma de uma avalanche, ou de uma trovoada, ou que sabem até um teto desabando.
Começaram então os discursos e o ressuscitado Lázaro do impeachment logo deu mostras de uma força e um vigor que jamais possuíra em sua encarnação anterior. O povo queria ouvir a importantíssima votação. Ouviram contundentes discursos de situacionistas e protestos furibundos dos oposicionistas – embora o tom destes últimos não fosse confiante. Os votos “sim”, em quase todos os casos vieram em voz clara, mas muitos dos “nãos” eram inaudíveis da galeria dos repórteres.
O presidente teria que depor no senado. A sorte foi lançada. Chegavam mensagens de incentivos ao presidente. Em outra região as massas reunidas pediam o impeachment. A maior cidade do país ameaçava matar e verter sangue pelo presidente. Mas o Congresso está decidido. Alguém diz que se o congresso titubear desta vez, vai pedir uma verba para revestir os senadores de chapas de ferro para que a nação possa mandá-los a pontapés do senado ao palácio presidencial sem que saiam arranhados.
Nesse tal de correr ao congresso ver a briga do impeachment, aos hotéis para ouvir a opinião pública o jornalista perdeu a noção do tempo. Em tempo, por um voto, o presidente não foi cassado! (trecho da genial reportagem de Mark Twain, o presidente Andrew Jackson é o personagem do impeachment).

(*) – É jornalista, âncora do JR News e editor do Blog do Barbeiro (herodoto@r7.com).

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