Em 2018 o domador da crise se chama cocriação

Martin Portner (*)

Não há nada com mais profundidade e alcance do que o olhar do lobo ao encarar o inimigo.

Ele não ataca; simplesmente mede o conjunto da situação, orelhas de pé, patas fincadas no solo e focinho em alerta. Os demais lobos da matilha não estão visíveis, mas se espalharam e formam um círculo analítico. Eles atacarão mais tarde, a hora é de coletar dados. O ano de 2018 será para as empresas brasileiras como a mata hostil para uma matilha de lobos. O ambiente que se avizinha é o prolongamento de uma crise que entra em seu quarto ano.

Nenhuma matilha de lobos cerca o inimigo com ruído. Quando o momento do ataque se aproxima, cada um deles está em contato com o outro e com o líder. Mas como essa comunicação acontece, já que eles permanecem em silêncio, não se enxergam entre si e não há nada para ser farejado além de feromônios e o cheiro da mata? A resposta está no mapeamento dos neurônios chamados de prossociais no cérebro dos lobos. Quando o líder desencadear o ataque, eles serão rápidos e precisos. Será um movimento de grupo e as chances de sucesso são grandes.

Algo parecido será exigido das equipes que trabalham nas empresas de vanguarda brasileiras. O inimigo é a estagnação da economia; ela vagueia em território onde as organizações precisam se mover. Será necessária uma forma de cooperação criativa, mas crítica, altamente dependente dos neurônios cerebrais localizados nas áreas prossociais dos indivíduos que compõem a equipe.

A cocriação, uma forma de gestão e de estratégia econômica, reúne diferentes stakeholders a fim de produzir um resultado que seja interessante para todos. Em tempos modernos, o processo cocriativo ultrapassa as paredes da empresa para ir de encontro ao próprio consumidor. A equipe de gestão recebe um aporte de ideias de indivíduos ou organizações que oferecem novas ideias. Todos têm algo a ganhar.

Um exemplo prático é a forma com que uma empresa do setor automobilístico lançou seu novo projeto. Em 2010, a Local Motors desenvolveu um veículo chamado de Rally Fighter em um período recorde de 18 meses, cinco vezes mais rápido do que o processo de fabricação de um veículo convencional. Ao capacitar uma comunidade de mais de dois mil designers que sugeriram esquemas, ao mesmo tempo em que colocava algumas limitações sobre o design básico e o esquema de cores, a empresa pôs em prática um modelo de cocriação.
Um aspecto curioso é que a empresa nem sequer possuía uma equipe de design – ele foi obtido da comunidade pública de designers.

Designers reunidos no processo cocriativo agem como lobos, que exibem quatro qualidades: criatividade, pensamento crítico, espírito colaborativo e comunicação produtiva. As últimas duas são ferramentas prossociais. Embora pareça algo lógico – seres humanos desde sempre se uniram para processos colaborativos –, muitos indivíduos se posicionam acima do coletivo.

Aqui entra a inteligência emocional, capaz de operar o elaborado processo em que se deixa as necessidades individuais para focar nas da equipe. Pode ser algo simples para quem nasceu trabalhando assim, como os millennials chegando agora ao mercado de trabalho, mas complexo para o líder tradicional que alcançou sucesso seguindo a cartilha do “é preciso mostrar o caminho”.

Criatividade e pensamento crítico são qualidades individuais colocados a serviço do coletivo. Junto com a colaboração e comunicação, eles formam a base para o surgimento de ideias, produtos ou serviços inovadores. A criatividade é divergente, espalha ideias; o pensamento crítico opera como um selecionador daquilo que pode e deve ser aproveitado.

Em 2018, a cocriação será ferramenta valiosa para as empresas brasileiras. Testada com sucesso em outros países e em algumas empresas brasileiras, o trabalho colaborativo é a menina dos olhos dos acadêmicos em gestão. Assim como os lobos sabem que devem unir-se para sobreviver em ambientes hostis, a cocriação é o caminho para emergir da nefasta crise que varre pelo terceiro ano o solo econômico brasileiro.

(*) – É Neurologista, Mestre em Neurociência pela Universidade de Oxford e especialista em Mindfulness. Divide suas habilidades entre atendimentos clínicos e palestras, treinamentos e workshops sobre sabedoria, criatividade e mindfulness (www.martinportner.com.br).

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