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Kayfabe 2.0: Quando o show rouba o emprego do fato

em Negócios
segunda-feira, 03 de novembro de 2025

Alain S. Levi (*)

Você já ouviu ou conhece a expressão kayfabe? A palavra provavelmente vem de uma gíria americana, possivelmente uma versão disfarçada de “be fake” (ser falso), ⁠que se tornou amplamente usada nos círculos de wrestling (luta livre) nos anos 1980.

No wrestling profissional (WWE – World Wrestling Entertainment), kayfabe é o pacto silencioso entre público e lutadores: todos sabem que é encenação, mas fingem que é real, por puro e simples entretenimento. O drama é bom demais para ser estragado pela realidade.

Fazendo um paralelo com os tempos atuais, já notou que o mundo está exatamente assim? A linha entre verdade e encenação está cada vez mais tênue, seja na política, na comunicação ou na vida corporativa. A política e o jornalismo viraram entretenimento, e as redes sociais, um verdadeiro ringue, inundados de narrativas polarizadas, fake news e disputas acirradas por atenção.

Líderes e personalidades se transformaram em personagens caricatos de um espetáculo fabricado com falas pensadas para viralizar, critérios dramáticos (e, muitas vezes, irresponsáveis) e enredos que distorcem os fatos e nos afastam da realidade. Atualmente, temos exemplos muito claros de como políticos criam uma narrativa contínua, em que tudo que dizem e fazem reforça um papel, mesmo que fatos desmintam suas falas.

No artigo The Populist Style and Public Diplomacy: Communication Strategies of Donald Trump, os pesquisadores Paweł Surowiec e Christopher Miles analisam o discurso do político e apontam sua comunicação como uma espécie de kayfabe: provocativa, teatral, voltada ao confronto e à manutenção de uma persona pública coerente, mesmo diante de contradições factuais.

Na política moderna, por exemplo, a construção da percepção importa mais que a verdade objetiva. Não se trata mais de informar, governar ou viver por um propósito, mas de manter o show de pé. E a qualquer custo!

Nesse mundo polarizado e “rede-socializado”, tudo o que é dito é rapidamente rotulado, elevado a meme ou a manifesto, e jogado para um dos lados da arquibancada ideológica. Quem fala alto, contradiz e provoca, ganha mais poder.

Mas e nós, como ficamos diante disso tudo?
Muitas vezes, sedentos por pertencimento, inseguros e carentes de líderes e instituições inspiradoras, nos tornamos figurantes nesse espetáculo: doamos nossas vozes, nossas mentes e nossos afetos para narrativas que nos entretêm. Aparentemente nos engajam, mas, na realidade, nos enganam e não nos transformam.

Vivemos um kayfabe 2.0. E talvez a pergunta mais urgente seja: quem está escrevendo o roteiro que você está consumindo? E por que seguimos aplaudindo? Ao reconhecer o conceito de kayfabe, diferenciamos os discursos encenados para emocionar, dividir ou influenciar, do que é realmente fato.

Tenho defendido que é hora de nos reaproximarmos do nosso propósito, revermos comportamentos, buscarmos sempre a verdade e adotarmos uma postura protagonista, porém, responsável, como co-criadores da transformação cultural que o mundo e a sociedade atual tanto carecem.

(*) Fundador e CEO da Motivare e autor do livro Marketing sem blá blá blá – inspirações para transformação cultural na era do propósito