
Empresas começam a se mobilizar contra a violência
Redação
O abuso e a violência infantil têm várias faces: uma delas é que pode marcar a criança tão profundamente que ela jamais esquece a dor e, quando adulta, esta emerge. Diferente do adulto, muitas vezes deixa transparecer que “está bem”, logo no dia seguinte à agressão, quando isto não é verdade. Mas este não é um problema localizado, e sim internacional, que por vezes leva um juiz da Infância e Juventude a ficar cara a cara com um “coiote” (indivíduo que se especializa em contrabandear pessoas através de fronteiras internacionais em troca de dinheiro). Viu algo estranho ou levemente suspeito? Disque 100. Esta é a segunda matéria da série Caminhos do Combate ao Abuso Infantil. Acompanhe.
Gentil, o juiz Paulo Roberto Fadigas recebe a reportagem do jornal Empresas&Negócios para entrevista sobre um tema com o qual lida diariamente: violência contra criança. Ele que é titular da Vara da Infância e da Juventude de Penha de França e do Setor Anexo de Atendimento de Crianças e Adolescentes Solicitantes de Refúgio e Vítimas Estrangeiras de Tráfico Internacional de Pessoas. Ali, na Zona Leste de São Paulo, cuida de esclarecer casos muitas vezes intrincados. Se em muitas ocasiões lidar com brasileiros é difícil, imagine quando chegam haitianos, afegãos, eritreus, somalis, e toda sorte de estrangeiros muitas vezes só de olho no “passaporte amarelo”, para emigrar a outros países. Para se fazer justiça a toda demanda, a experiência ajuda. O dr. Fadigas (como é conhecido) está há 30 anos neste ofício, metade dos quais trabalhando com crianças, jovens e também com adultos nos casos de violência sexual, violência física, violência psicológica e violência institucional, como ele próprio enumera.

“Eu não aceito os casos de estupro, fico profundamente indignado, mas não mais chocado”, responde de forma sintética à pergunta: “O sr. ainda fica chocado com os casos de estupro infantil?”. De acordo com o magistrado, formado em Direito pela USP e Líder Executivo em Primeira Infância pela Harvard University, os casos de estupro têm como agressor, em 99% dos casos, o pai, padrasto ou alguém muito próximo da família (amigo, tio ou avô). Em sua rotina de trabalho recebe um caso desses a cada dois meses, em média. Mas cabe recordar que há (muitos) casos não relatados/denunciados.
— O que está oculto não quer ser visto. Por isso, na terapia, eu ressignifico essa culpa, mostrando que quando criança você foi seduzida à força e agora você é adulta e pode se defender, impor limites.
Depois de orientar para a observação constante da criança (ao menor sinal de estresse ou comportamento agressivo, por exemplo), ele afirma que a criança é diferente do adulto no quesito comportamento e muitas vezes “pode parecer estar bem, no dia seguinte à violência sofrida, mas não está”. É de autoria desse juiz a proposta de criação de Varas de Crimes Praticados Contra Crianças e Adolescentes da Comarca de São Paulo com equipes especializadas e multidisciplinares de atendimento. A ideia surgiu em 2016 e hoje já existem três dessas Varas instaladas.
Foi parar na Penha de França, e nas mãos de Paulo Roberto Fadigas, o caso de um menino (menor de 10 anos) abandonado em estação da Linha Vermelha do Metrô. Isso foi em 2019/2010 e o caso deu pano pra manga, porque o jovem era haitiano, sua mãe estava refugiada em Caiena, na Guiana Francesa, e os “coiotes” no meio deste imbróglio. Fato é que o juiz resolveu o caso, devolveu a criança à mãe, não sem antes mobilizar os governos da Guiana e da França.
Não é simples também se fazer o filtro de estrangeiros que buscam tão somente o “passaporte amarelo”, que lhes dá direito de entrar noutros países, passando pelo Brasil, como refugiados. Enfim, coisas do ofício. O juiz aplica a lei e segue rituais, conforme o caso, de acionar Conselho Tutelar, polícia, hospitais etc. Mas isto depois de consumadas certas situações. O que fazer, então, de forma preventiva?
— Disque 100 – sentencia o juiz, orientando pessoas a fazer denúncias contra o abuso.

APOIO CORPORATIVO
Você consegue imaginar que tem gente sendo abusada e nem sabe que é qualificada como vítima de tais práticas? Isso pode acontecer, sim, especialmente por crianças. A afirmação é de Gianeh Borges, administradora de formação, consteladora e professora de direito sistêmico, que vem se dedicando à prática da terapia faz alguns anos.
Em algumas situações – “e isto não parece tão incomum — , o trauma é tão grande que não há denúncia. É o caso de mulheres e meninas abusadas pelo tio, avô, pai de coleguinhas… A criança / adolescente guarda a agressão em silêncio, cresce traumatizada e quando faz terapia na fase adulta, tentando resolver uma síndrome do pânico, ou crise de ansiedade, surge o “fantasma” do estupro. “Geralmente entre o primeiro e o terceiro encontro as pessoas acessam o trauma, que reside dentro dela, em camadas mais escondidas”, revela Gianeh, acrescentando que existem situações em que a família culpa a vítima. “Eles não dão conta e isto vai explodir na fase adulta”.
— Como lidar com essa “culpa”?
— O que está oculto não quer ser visto. Por isso, na terapia, eu ressignifico essa culpa, mostrando que quando criança você foi seduzida à força e agora você é adulta e pode se defender, impor limites.
De acordo com a terapeuta, que mora e trabalha em Cuiabá/MT, a pessoa abusada fica vulnerável a várias situações. “É irreal pensar que tudo será esquecido”, diz Gianeh, acrescentando em seguida: “Eu tiro o fato da categoria `principal`, tornando-o `mais um episódio´ na vida do paciente e não mais o principal”.
Outra questão difícil de se evitar diz mais sobre a nossa cultura que propriamente o dia a dia. “Somos ensinados, desde pequenos, a amar os pais; de uma certa forma, somos até obrigados. E quando os país são os abusadores? O que fazer”?, questiona.

Fundadora do Instituto OCA, Núcleo de Consciência Humana
(https://servicos.caamt.com.br/conveniosonline/convenio/1207/instituto-oca-nucleo-de-consciencia-humana), Gianeh Borges, comentou o aspecto social que vem permeando organizações empresariais: “Temos uma grande empresa no Mato Grosso que decidiu apoiar uma comunidade do entorno, oferecendo apoio social e psicológico. Logo, o serviço ampliou-se para o quadro de colaboradores e hoje o entorno é a segunda preocupação e não mais a primeira…”
E depois de afirmar que muitas ocorrências de síndrome do pânico, doenças ginecológicas e até asma podem ter origem em violações que pessoas sofreram de criança, conclui: “Há muito mais gente precisando de ajuda do que imaginamos”.
Acesse a entrevista de Gianeh Borges ao podcast “POD+ Empresas”, no início deste ano: https://www.y outube.com/watch?v=9StkHvTYU8A


