Senado aprovou verba que permitiu primeira participação do Brasil nas Olimpíadas

Senado aprovou verba que permitiu primeira participação do Brasil nas Olimpíadas

Nas primeiras cinco edições dos Jogos Olímpicos da era moderna, entre 1896 e 1912, o Brasil não enviou atletas. Das modalidades olímpicas então em disputa, apenas duas — o remo e o futebol — eram praticadas em bom nível no país. O intercâmbio com outras nações era quase inexistente e o interesse pelos Jogos era nulo

CEME/ESEF/UFRGS
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Atletas brasileiros desfilam na cerimônia de abertura dos Jogos de 1920, na Bélgica: governo liberou patrocínio em cima da hora.

André Fontenelle/Agência Senado

Isso mudou em 1920, quando a Bélgica organizou na cidade de Antuérpia a primeira Olimpíada após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O Brasil foi convidado a participar e tinha razões diplomáticas para se fazer presente. O rei da Bélgica, Alberto I, iria visitar o Brasil um mês depois dos Jogos. Era a primeira vez que um monarca europeu desembarcava na jovem República brasileira, e aceitar o convite era um gesto de cortesia quase obrigatório para o governo do presidente Epitácio Pessoa.

Para custear o envio de uma delegação, o Senado apresentou o Projeto 3, que, após ser emendado pela Câmara dos Deputados, autorizou a liberação de 150 contos de réis para “expediente, material, viagem e estadia dos representantes das sociedades esportivas brasileiras que tenham de comparecer à Olimpíada Internacional de Antuérpia”. O presidente do Comitê Olímpico Nacional (precursor do atual Comitê Olímpico do Brasil) era um senador, Fernando Mendes de Almeida (MA), o que deve ter contribuído para a aprovação do projeto.
Viagem na 3ª classe
O Arquivo do Senado, em Brasília, guarda cópias tanto do parecer favorável quanto do decreto com a assinatura presidencial. Um detalhe curioso é que o decreto só foi sancionado por Epitácio em 7 de agosto de 1920, quando a delegação brasileira já se encontrava na Europa. A cerimônia de abertura dos Jogos ocorreria dali a uma semana, no dia 14, e a viagem de navio para a Bélgica, cheia de escalas, levava quase um mês.

Abertura na Antuérpia dos VII Jogos Olímpicos.
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Além disso, nossa participação nas Olimpíadas começaria duas semanas antes da abertura oficial: as provas de tiro em que os brasileiros estavam inscritos tiveram início no dia 2 — o que era normal na época. Ainda hoje o torneio olímpico de futebol, por questões de calendário, começa alguns dias antes da cerimônia de abertura. O embarque da equipe ocorreu no dia 3 de julho, no transatlântico Curvello, e os atletas tiveram que viajar na terceira classe por falta de dinheiro para comprar passagens melhores.

Vaquinha
Mesmo assim, o Brasil foi muito bem-sucedido em sua primeira participação, ganhando três medalhas: uma de ouro (Guilherme Paraense, em pistola militar a 30 metros), uma de prata (Afrânio da Costa, em pistola livre a 50 metros) e uma de bronze (por equipes, também em pistola livre a 50 metros). Ao todo, o Brasil competiu com 16 atletas no tiro, na natação, remo, nos saltos ornamentais e no pólo aquático.

É difícil saber ao certo quantos atletas poderiam ter sido enviados com os 150 contos de réis liberados pelo governo, mas é possível fazer uma estimativa a partir de uma declaração dada em 1928 pelo presidente da Confederação Brasileira de Desportos, Renato Pacheco, ao diário carioca ‘O Jornal’. Segundo ele, com 720 contos de réis seria possível enviar uma delegação de 80 pessoas aos Jogos daquele ano, em Amsterdã. Corrigindo os valores de 1920 pela inflação da época, chega-se a algo em torno de 30 atletas.

A equipe brasileira de pólo aquático que disputou os Jogos de 1920, em Antuérpia: depois de vencer a França (5 a 1) nas oitavas de final, ela foi eliminada pela Suécia (7 a 3) nas quartas.
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A ideia inicial era também enviar uma equipe de futebol em 1920, o que representaria a primeira ida de um time brasileiro aos campos europeus. Provavelmente a demora na liberação da verba impediu a concretização desse plano. O Brasil tinha tudo para fazer boa figura. Em 1919, havia conquistado no Rio o Campeonato Sul-Americano, derrotando na final o Uruguai — os mesmos uruguaios que nos Jogos de Paris, em 1924, e de Amsterdã, em 1928, conquistariam a medalha de ouro, demonstrando que o futebol sul-americano era superior ao europeu. O craque brasileiro era o centroavante Arthur Friedenreich. Nunca saberemos se ele teria ajudado a trazer já em 1920 a medalha de ouro olímpica que até hoje o futebol brasileiro persegue.

Em 1924, o governo de Arthur Bernardes decidiu não conceder verba para o envio de uma delegação para os Jogos de Paris. O país só se fez representar nas Olimpíadas porque o jornal ‘O Estado de S. Paulo’ realizou uma subscrição pública (nome que era dado na época àquilo que hoje é chamado de crowdfunding) que permitiu mandar à França uma pequena equipe de atletismo, que não trouxe nenhuma medalha. Dois remadores e um atirador também participaram em nome do Brasil nos Jogos de 1924, custeando do próprio bolso a viagem.

Presidente irritado

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Nem isso foi possível, porém, na Olimpíada seguinte, em 1928, em Amsterdã. O presidente Washington Luís não se mexeu para liberar recursos. Dizem que ele ficou ressabiado por um episódio ocorrido um ano antes, num jogo de futebol. Paulistas e cariocas decidiam o Campeonato Brasileiro — na época o torneio era disputado por seleções estaduais, e não por clubes — no estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.

Washington Luiz estava na tribuna, a primeira vez que um presidente da República, com seu ministério, comparecia a uma final de campeonato. Os paulistas, porém, se retiraram de campo no segundo tempo, inconformados com a marcação de um pênalti em favor do time do Rio. Contrariado, o presidente foi embora do estádio no meio da confusão e por esse motivo teria negado verba para a delegação brasileira no ano seguinte.

Amsterdã foi a última Olimpíada sem a participação brasileira. Desde os Jogos de Los Angeles, em 1932, o Brasil nunca mais deixou de se fazer representar. Mas a penúria sempre foi a marca da maioria das participações brasileiras. A falta de dinheiro para bancar a ida de todos os atletas classificados obrigava o Comitê Olímpico do Brasil (COB) a fazer escolhas, sempre desagradando este ou aquele esporte.

Nos Jogos de Sydney, em 2000, o governo liberou na última hora uma verba de R$ 10,5 milhões, salvando a delegação brasileira. O dinheiro chegou tão tarde que o COB teve que devolver uma parte, pois não dava mais tempo de gastar tudo. O século 20 chegava ao final e o esporte brasileiro ainda padecia dos mesmos males de 1920. Só a partir dos Jogos de Atenas, em 2004, a situação começaria a mudar, graças a uma lei de iniciativa do Senado.

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