O pêndulo demográfico

O pêndulo demográfico

Tese revela que a sede e o entorno da Região Metropolitana de São Paulo perdem população e atraem cada vez menos migrantes de outros Estados

ju 650 p6e7 a-b-c-d temproario
  • Save

 

Luiz Sugimoto/Jornal da Unicamp

A capital paulista permanece como polo dominante da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), mas vem crescendo menos e perdendo população para municípios do seu entorno, enquanto Mogi das Cruzes figura como segundo polo e Cotia surge como terceira força graças à Granja Viana, sua indústria e serviços. Ao mesmo tempo, nas últimas três décadas, a sede e o entorno da RMSP perdem população para o interior, bem como o poder de atração de migrantes de outros Estados: se antes, entre 1960 e 1980, a região apresentava um saldo migratório de aproximadamente 2 milhões de habitantes (entre saídas e entradas) por década, houve uma perda de quase 300 mil pessoas na década de 1980 e de outras 300 mil na década de 2000-2010, com tendência de o saldo ser zerado ou mesmo negativado nesta década até 2020.

Estes são alguns resultados de um minucioso estudo sobre a mobilidade espacial da população da RMSP, envolvendo os conceitos de espaço de vida, mobilidade residencial e migração, e que mostra as transformações demográficas ocorridas na metrópole desde 1872 (data do primeiro censo), com ênfase para o período de 1980 a 2010. Trata-se da tese de doutorado do estatístico Aparecido Soares da Cunha, analista de Planejamento, Gestão e Infraestrutura em Informações Geográficas e Estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ele foi orientado pela professora Rosana Baeninger, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

Na opinião de Aparecido Cunha, o seu trabalho também contribui com uma nova perspectiva de se observar a mobilidade da população e redefinir o conceito de migração. “Criamos uma metodologia de análise a partir dos ‘espaços de vida’, assim chamados por Daniel Courgeau por se basearem nas atividades e nos espaços que os indivíduos ocupam em seu dia a dia, como para trabalho, estudo ou qualquer outra atividade rotineira, seja dentro do município ou envolvendo outros além do residencial. Essas atividades variam conforme a idade: uma criança, sem autonomia para se deslocar, tem um espaço de vida mais restrito, mas à medida que vai crescendo passa a brincar no condomínio, visitar o pediatra, ir à escola, visitar a avó; o espaço de vida se amplia para o adolescente, jovem e adulto, e volta a diminuir para o idoso.”

ju 650 p6e7 e temproario
  • Save
O autor afirma que sua preocupação maior na tese foi verificar o que acontece em termos de mobilidade da população dentro destes espaços de vida, diferenciando os conceitos de migração e de mobilidade residencial. “Pelo conceito tradicional, que consta no manual da ONU, migração é toda mudança residencial de uma área administrativa para outra. Na tese, coloco a migração como um processo mais difícil e traumático para a população, pois a pessoa sai do seu espaço de vida e vai para outro espaço de vida desconhecido, ou seja, não experimentado, onde precisará se adaptar e interagir com o novo local. Na mobilidade residencial, se a pessoa mora em São Paulo e trabalha em Guarulhos, e decide mudar para a segunda cidade, o deslocamento se dá dentro do ambiente que ele já vivencia e conhece, isto é, dentro do seu espaço de vida. Observou-se que mais de 95% das mudanças de residência dentro da RMSP ocorrem dentro do mesmo espaço de vida, ocorrendo pouca migração.”

Cunha concentrou-se nos dados dos censos demográficos sobre movimentos pendulares para criação de espaços de vida, para trabalho ou estudo, ainda que este espaço contemple uma gama maior de atividades do cotidiano e envolva também os deslocamentos ao médico, igreja, casa de parentes, lazer, compras, etc. “Na Pesquisa Origem-Destino da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), identificamos que quase 80% dos movimentos pendulares na RMSP ocorrem para trabalho ou estudo, e pouco mais de 20% para outras atividades que não constam nos censos. Com os dados censitários e a partir dos movimentos pendulares registrados por um indivíduo de uma determinada localidade (espaço de vida indivi­dual), fomos construindo os espaços de vida da população de cada um dos 39 municípios da região (espaço de vida coletivo). Delimitados estes espaços, observou-se a mobilidade espacial da população por município, verificando se ocorriam e predominavam a migração ou a mobilidade residencial.”

ju 650 p6e7 f temproario
  • Save
O pesquisador apresenta dados de 2014 do IBGE apontando que os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo somam 20,9 milhões de habitantes ocupando uma área de 7,9 mil km2, o que equivale a aproximadamente 10% da população do Brasil e quase 50% do estado de São Paulo. “Fiz um apanhado histórico dos desmembramentos municipais desde 1548, quando da fundação da Vila de São Paulo, detalhando os processos de desenvolvimento econômico e os deslocamentos populacionais para mostrar os municípios que se tornaram centrais, especialmente São Paulo e Mogi das Cruzes, embriões da RMSP. Avalio o crescimento demográfico e a importância da migração na região, sobretudo até o ano de 1980, a partir do qual vemos uma queda significativa do crescimento da Capital em relação às cidades do entorno metropolitano.”

De acordo com Aparecido Cunha, o espaço de vida de uma população pode ser contíguo ou não, como no caso de um município dependente de outro a 30 km de distância, sem interagir com os municípios do seu entorno. “São Paulo, ao contrário, interage com todos os demais 38 municípios, sendo o único com esta característica; ao passo que Santana de Parnaíba e Juquitiba interagem com poucas cidades da região. Isso depende de componentes como o nível de desenvolvimento econômico e número de habitantes em idade economicamente ativa. Há o caso de Barueri, que recebe diariamente mais população de outros municípios do que a própria população ativa, sendo também a única com esta característica na RMSP, o que se deve à alta concentração de emprego em empresas atraídas por incentivos fiscais.”

Entre outras variáveis observadas pelo estatístico está o emprego ligado a serviços em residências de grandes condomínios desse município, que acaba atraindo muitas pessoas do entorno. “As pessoas já não se deslocam em grande número para locais muito distantes, o que é uma mudança do século passado para este. Da mesma forma, as chamadas cidades dormitórios perderam esta característica tão marcante na década de 1970 – Taboão da Serra e Itapecerica da Serra hoje possuem atividade econômica e também empregam, apesar de um excedente populacional que busca trabalho em outros municípios. E Cotia, Barueri e Mogi das Cruzes, antes de vocação agrícola, atraem uma população importante para residência e emprego.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap