Livro mostra as transformações políticas em São Paulo

São Paulo dos anos 1890 a 1930, época marcada por conflitos políticos e mudança social e cultural no Estado – e também no País -, é tema da análise do professor James P. Woodard, da Universidade de Monclair, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, no livro Um Lugar na Política – Republicanismo e Regionalismo em São Paulo, da Editora da USP (Edusp), com tradução de Ana Maria Fiorini

Claudia Costa/Jornal da USP

O lançamento acontece amanhã (17), a partir das 16h30, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, incluindo mesa-redonda com o tema ‘Repensando a República em São Paulo’, com a participação do autor e das historiadoras e professoras da USP, Maria Helena Capelato e Maria Helena Machado.

Segundo Woodard, São Paulo foi palco de um dos desenvolvimentos políticos mais importantes do País, como a contestada campanha presidencial de 1909-1910 e a revolta militar de 1924. Resultado de sua tese de doutorado, o estudo de Woodard começa nos anos finais do século 19, quando a Constituição de 1891 definia poderes políticos nas esferas federais, e se estende até a mobilização em massa de 1931-32, quando os paulistas se revoltaram e marcharam contra o governo nacional.

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A campanha de Ruy Barbosa à Presidência da República, em 1910, foi marcada por forte oposição à candidatura do marechal Hermes da Fonseca, e ficou conhecida como Campanha Civilista – Foto: Reprodução/Ag.Senado via Wikimedia Commons

“O objeto de estudo do livro é a política em seu sentido amplo, abrangendo estruturas, práticas, tradições, ideias e identidades políticas, e sua formação e reformação”, afirma Woodard na introdução.

O autor recorre a uma grande variedade de fontes documentais, estabelecendo um diálogo crítico entre a bibliografia brasileira e a norte-americana, e propõe uma reinterpretação da política e da cultura política no Estado de São Paulo.

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Folheto de campanha presidencial de Ruy Barbosa, em 1919. Foto: PD-Brazil-media via Wikimedia Commons

Segundo ele, São Paulo abrigou alguns dos mais importantes movimentos políticos, intelectuais e sociais do Brasil. “Nas décadas de 1870 e 1880, foi o lar do mais notável movimento de oposição antimonárquica do Brasil, o qual buscava substituir o governo ‘imperial’ centralizado do País por uma república federativa”, escreve, e ainda lembra que, nessas mesmas décadas, a província foi também campo de batalha para as maiores campanhas antiescravistas do Brasil.

Na década de 1910, segundo o autor, um nacionalismo mobilizador desfrutou de seu auge, não somente na capital, mas também no interior. “Enfrentando uma derrota certa, Ruy Barbosa desistiu do que teria sido a campanha presidencial de 1913-1914, deixando campo aberto ao candidato mineiro (Venceslau Brás) das grandes máquinas estaduais”, informa.

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Venceslau Brás, presidente do Brasil entre 1914 e 1918. Foto: Arquivo Nacional/Domínio público

Segundo ele, os anos de 1921 e 1922 viram mais uma disputada campanha presidencial, na qual Nilo Peçanha, do Rio de Janeiro, desafiou Arthur Bernardes, outro candidato mineiro apoiado pelas grandes e poderosas máquinas políticas estatais. “Como convém a um político experimentado, Peçanha aceitou sua derrota com tranquilidade, mas alguns de seus apoiadores, não”.

Em 1924, uma mobilização de outro tipo emergia: uma rebelião militar conduzida principalmente por oficiais jovens e de baixa patente ocupou a cidade de São Paulo por semanas. “Dois anos mais tarde, a capital foi o local escolhido para a fundação do mais importante movimento civil de oposição da época, um partido político (Partido Democrático de São Paulo) que desafiou a máquina republicana do Estado em termos liberais e constitucionalistas”, afirma.

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E continua: “Quatro anos depois, em 1930, os líderes do novo partido ataram seu destino a políticos oligárquicos de outros Estados naquela que seria conhecida e reconhecida como a ‘Revolução de 1930’”. O autor enfatiza que, ao longo desses anos, São Paulo – cidade e Estado – foi cenário e sujeito da elaboração de um profundo e persistente senso de diferenciação e distinção regionais, e que as experiências políticas paulistas pré-1930 abriram caminho para a última grande revolta regionalista do Brasil, a Revolução Constitucionalista, de 1932.
Segundo Woodard, a despeito de sua importância, a política desse período ainda não recebeu a atenção historiográfica que merece. “Evidentemente, ela é há muito apontada como crucial para a formação do Brasil moderno, mas seu exame é sempre limitado a temas específicos (um partido ou personalidade aqui, uma municipalidade ou revista acolá)”, analisa, acrescentando que o livro pretende fazer uma série de contribuições, principalmente para o entendimento da política moderna.

Simpósio lembra os 100 anos da Internacional Comunista

Maria Laura López/Jornal da USP

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Detalhe de propaganda da Internacional Comunista feita pelo Partido Comunista da União Soviética em 1919. Foto: Divulgação/FFLCH

“A Internacional Comunista era o ponto de clivagem da política mundial na primeira metade do século 20”, afirma o professor Osvaldo Coggiola, da FFLCH/USP, organizador do Simpósio Internacional: 100 Anos da Internacional Comunista (1919-2019). O evento começa hoje (16) e vai até sexta (18), nos auditórios da FFLCH, na Cidade Universitária.
Para Coggiola, que estuda história contemporânea relacionada a temas como marxismo, capitalismo e América Latina, é uma pena que a data não esteja sendo amplamente debatida ao redor do mundo. “O caráter polêmico da Internacional fez com que ela não fosse muito lembrada em outros lugares neste centésimo aniversário, apesar de sua importância para a compreensão dos acontecimentos na história recente”.
Com a falta de outros eventos do tipo, o simpósio organizado por Coggiola se destaca por ser o maior e mais completo evento sobre o assunto no País e na América Latina. Com 56 mesas em apenas três dias, foi necessário organizar algumas no mesmo horário, porém em auditórios diferentes. Coggiola fará um apanhado histórico sobre Internacional Comunista, Revolução Russa e Terceira Internacional. Os professores José Salles, Augusto Bonicuore, Sofia Manzano, Lucca Maldonado e Frederico Falcão falarão sobre o Partido Comunista na história do Brasil.
Para tratar do tema Internacional Comunista e Revolução Latino-Americana estarão presentes Deni Rubbo, Yuri Martins Fontes, Claudia Romero, Mariano Schlez e Paulo Alves Junior. No entanto, o maior destaque dessa sequência de mesas será a comandada pelo sociólogo alemão Bernhard Bayerlein. Ele, que é o principal especialista sobre o assunto no mundo, falará sobre os arquivos e o estudo da Internacional Comunista.
Bayerlein ainda participará de outras três mesas: A Internacional Comunista entre Lênin e Stalin, Willi Münzenberg, a Comintern e a Liga Anti-Imperialista e A Internacional Comunista e o Socorro Operário Internacional. “É uma ocasião muito rara juntar todos esses pensadores para debater aqui, principalmente diante do fato de que ninguém está lembrando dessa data”, ressalta Coggiola.
“O Brasil tem um descompasso muito grande com relação a toda a pesquisa e avanço histórico no que diz respeito à história da esquerda e do comunismo”, diz o professor, que ao organizar o simpósio tenta preencher um pouco esse vazio. Para isso, o evento contará com mesas que tratam da influência da Internacional Comunista nos mais diversos lugares do mundo, desde o Brasil e América Latina até a China e países árabes.
Organização fundada em março de 1919 pelo revolucionário russo Vladimir Lenin (1870-1924), a Internacional Comunista, criada logo após a Revolução Russa de 1917, tinha o objetivo de promover a união mundial de repúblicas comunistas, sob a liderança do Partido Comunista da União Soviética. O nome da Internacional mudou de socialista para comunista a fim de ser mais enfática. Veja a programação no site (http://internacionalcomunista.fflch.usp.br/inicio).

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