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A 80 dias da abertura, Rio 2016 ainda não empolga

em Especial
terça-feira, 17 de maio de 2016
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A 80 dias da abertura, Rio 2016 ainda não empolga

“Chegou a nossa hora. Para os outros, será apenas mais uma Olimpíada. Para nós, será uma oportunidade sem igual. Aumentará a autoestima dos brasileiros, consolidará conquistas recentes, estimulará novos avanços”

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Estas foram as palavras do então presidente Lula ao defender perante o Comitê Olímpico Internacional (COI), em 2009, a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos de 2016.

Hoje, faltando 80 dias para a cerimônia de abertura, está claro que a hipótese do ex-mandatário, que pensava em usar o evento para consolidar a imagem do Brasil como potência mundial, não se confirmou. Segundo um levantamento feito pela ANSA Brasil em seis jornais internacionais entre 1º de janeiro e 31 de março, as notícias sobre a Rio 2016 foram ofuscadas pelas turbulências que afastaram a presidente Dilma Rousseff e podem levar Lula à prisão e pela epidemia de vírus zika.

Das matérias referentes ao país publicadas neste período pelos diários “Corriere della Sera” e “la Repubblica” (Itália), “El País” (Espanha), “The New York Times” (EUA), “Le Monde” (França) e “La Nación” (Argentina), apenas 29% diziam respeito às Olimpíadas, sendo que a maior parte delas falava de atletas classificados, ou seja, o foco não estava no Brasil. Por outro lado, 39% se referiam à crise institucional em Brasília, e 32%, à epidemia de zika. Os dados reforçam a sensação de que os Jogos Olímpicos perderam parte de sua capacidade de gerar dividendos à nação e de influenciar positivamente sua imagem no exterior.

O vizinho “La Nación” publicou no início de fevereiro um artigo com o título “Jogos (ainda) sem entusiasmo”, que fala justamente que a preocupação do brasileiro está mais voltada para o bolso do que para as arenas esportivas. “Com uma recessão de 3,7% na economia no ano passado e uma expectativa de contração de pelo menos 3% para este ano, os brasileiros, em geral, e os cariocas, em particular, têm outras preocupações muito maiores”, escreveu o periódico argentino. Contudo, lembrou que o brasileiro tem o hábito de deixar tudo para a última hora.

O ex-jogador de vôlei Giovane desfila com a tocha olímpica da Rio-2016, em Olímpia, na Grécia.Já o norte-americano “The New York Times” realizou, em 2014, uma espécie de diário durante os 100 dias que antecederam a Copa do Mundo, com atualizações frequentes sobre o estágio de preparação do país para o torneio. No entanto, as Olimpíadas, até aqui, se resumem para o jornal ao vírus zika: das 21 notícias publicadas nos três primeiros meses de 2016, 17 estavam relacionadas à epidemia.

Outro dado que pode indicar um desinteresse pelo evento é a venda de ingressos. Até o fim de abril, apenas 62% da carga de 5,7 milhões de bilhetes havia sido comercializada. “Temos que reconhecer que, sem dúvida nenhuma, um pouco do foco foi deslocado neste primeiro momento. É natural que o impeachment seja mais matéria de primeira página. Mas eu acredito que, assim que se aproximarem mais os Jogos Olímpicos, o foco vai se deslocando naturalmente”, diz o presidente dos Correios, Giovanni Queiroz. A estatal é um dos patrocinadores oficiais da Rio 2016 e também seu operador logístico. Das medalhas aos cavalos do hipismo, a empresa transportará mais de 30 milhões de objetos relativos às Olimpíadas.

O contrato foi assinado em 2014, quando a crise política apenas se desenhava e poucos tinham ouvido falar de zika e microcefalia. No entanto, Queiroz garante que não houve mudança de planos para se adaptar a essa nova realidade. Em breve começará a ser veiculado no Brasil um comercial para evidenciar a participação dos Correios nos Jogos, embora boa parte da atenção da companhia esteja voltada ao mercado externo, onde a Rio 2016 vem sendo tratada como um mero apêndice da crise política e da epidemia de zika.

“A transmissão [das crises] para os Jogos será feita naturalmente. O mundo todo estará olhando para as Olimpíadas, e nós temos a intenção de expandir nossas ações para outros países, particularmente na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos”, completa o presidente da estatal. O Bradesco Seguros, que é patrocinador e segurador oficial dos Jogos, não comentou os efeitos da crise sobre o evento, mas destacou que já está promovendo uma série de ações promocionais, como um concurso que premiará novos clientes com “pacotes de experiências” e a criação de um museu itinerante que passará por 45 cidades. Procurados, os outros apoiadores da Rio 2016, Bradesco, Claro, Embratel e Nissan, não quiseram se pronunciar sobre o tema.

Bandeira-Olimpica temproario“As Olimpíadas geram menos impacto que a Copa, isso é normal pela estrutura do país. Mas, trazendo para a questão do marketing, [o momento atual] dificulta demais o engajamento para o evento”, diz o consultor esportivo Erich Beting. Ele destaca que um dos pontos que pode ajudar a envolver mais a população é a passagem da tocha olímpica pelo Brasil. O evento, que está sendo realizado em mais de 300 cidades, deve dar uma “aquecida” nos negócios, apesar de não haver um clima de “oba-oba”.

Já para o consultor de marketing esportivo Amir Somoggi, o COI “cometeu um erro enorme” ao entregar os Jogos Olímpicos para o Rio de Janeiro. “Como podem dar as Olimpíadas e a Copa do Mundo para um mesmo país em tão pouco tempo? O Brasil não é a China ou os Estados Unidos, que podem fazer as duas competições em um espaço de dois anos porque já têm uma grande parte da estrutura pronta e uma economia pujante”, diz.

Segundo ele, do ponto de vista econômico, a Rio 2016 será um “fracasso” e dará prejuízos financeiros. “Como deu a Copa”, acrescenta. Somoggi acredita que o COI precisará “colocar dinheiro” no evento ou “diminuir os lucros para não ter uma perda muito grande”. Para confirmar sua visão, ele cita os problemas que “não existiam” tempos atrás. “Há três anos não tínhamos toda essa violência no Rio, que parecia ter diminuído, e nem tínhamos zika e H1N1, que agora temos”.

Evento-teste de canoagem contou com competições Olímpicas e Paralímpicas, reunindo atletas de 30 países.Por sua vez, Beting tem uma opinião um pouco diferente. De acordo com ele, os contratos assinados entre o comitê e alguns dos patrocinadores, entre 2009 e 2010, “foram muito vantajosos financeiramente” para a entidade. “Sobre o COI colocar dinheiro, ainda não tenho certeza. O Rio tinha atingido a meta financeira lá atrás, então acho que a conta para os Jogos está ok”, ressalta o especialista, lembrando que, em termos de gestão, o comitê internacional é “muito melhor que a Fifa”. Se ainda há dúvidas quanto à capacidade da Rio 2016 de gerar lucros, parece mais claro que ela perdeu seu potencial de proporcionar dividendos políticos, como havia sido em 2009, quando o então presidente Lula, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes usaram os Jogos para reforçar a imagem de potência emergente do Brasil.

Evento-teste de Hóquei sobre grama.“A própria mídia oficial não está mais dando muito destaque para não haver a rejeição que teve a Copa do Mundo, quando se gastou muito dinheiro em estádios. Inteligentemente, o governo não está divulgando muito as Olimpíadas por causa disso, estão esperando que elas passem logo. Na realidade, você tem uma divulgação muito pífia – por ser um evento internacional – no Brasil”, explica o especialista em marketing político Carlos Manhanelli, destacando que isso vale para as três esferas: federal, estadual e municipal. Segundo ele, a empolgação começou a evaporar quando as perspectivas em relação ao Brasil não se confirmaram, com a deterioração da economia. Se o governo insistisse no discurso da Rio 2016, os efeitos sobre sua imagem poderiam ser mais negativos do que positivos. Em um contexto no qual os índices econômicos estivessem nos trilhos, os Jogos poderiam ser usados como contraponto ao processo de impeachment da presidente Dilma.

“Com certeza o governo [afastado] estaria usando esse evento para mostrar a capacidade que ele tem de aglutinação, mas hoje seria prejudicial. Falar de Olimpíadas pioraria as coisas. Divulgando as Olimpíadas, ele daria munição para quem acha que é dinheiro jogado fora”, afirma Manhanelli (ANSA).