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Sua empresa pratica ou só prega o cuidado?

em Espaço empresarial
sexta-feira, 03 de outubro de 2025

Como identificar quando o bem-estar é só discurso

Juliana Romantini (*)

Imagine entrar em uma reunião carregando o peso da insônia, da ansiedade ou de uma dor de cabeça causada pelo estresse. Essa é a realidade silenciosa de milhares de profissionais brasileiros neste momento.

E os números só confirmam: em 2025, o uso de medicamentos para lidar com estresse, ansiedade e burnout disparou. Entre profissionais com nível superior e 25 anos ou mais, 52% dos líderes e 59% dos liderados fazem uso desse tipo de medicação (em 2024, eram apenas 18% e 21%). Os dados são do estudo Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizado pela The School of Life.

Outro dado alarmante: os afastamentos por problemas de saúde mental cresceram 143%, de janeiro a julho de 2025, segundo levantamento da VR com quase 30 mil empresas e mais de 1,2 milhão de trabalhadores.

Ambos os estudos deixam claro que existe um abismo entre o discurso bonito e a prática real do cuidado. Esses números mostram que, embora a saúde mental seja tema de discursos, campanhas e até faça parte dos valores institucionais, ela ainda não foi incorporada pela prática corporativa, ou seja, não se traduz em mudanças reais na rotina das pessoas. E isso não passa despercebido pelos colaboradores. Pelo contrário: a incoerência costuma aumentar a frustração e a desconfiança.

É importante ressaltar que não é só o trabalho que afeta a saúde dos colaboradores. Mas certamente ele é uma parte importante desse processo.

Se você faz parte das lideranças que têm poder de decisão, aqui estão 3 sinais de alerta de que a sua empresa pode estar apenas falando de cuidado, e não praticando:

  1. Ações restritas a datas específicas – Na Semana da Saúde ou no Setembro Amarelo, tudo acontece: palestras, campanhas internas, até brindes personalizados. Mas, passado o evento, o tema some do dia a dia. Saúde integral não se sustenta em datas comemorativas. Precisa ser prática cotidiana.
  2. Liderança incoerente – De nada adianta oferecer uma palestra sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional se os líderes continuam enviando mensagens às 23h ou marcando reuniões para o horário de almoço. O exemplo da liderança é a bússola da equipe. Se a prática não acompanha o discurso, o cuidado perde credibilidade.
  3. Falta de métricas reais – É comum vermos empresas dizendo que “cuidam da saúde mental”, mas sem nenhuma forma de medir sobrecarga, níveis de estresse ou causas de burnout. Sem dados, não há como entender os reais desafios e muito menos agir sobre eles. O cuidado precisa ser acompanhado de avaliação, indicadores e ajustes.
    O que fazer, na prática? – Eu só acredito que as mudanças acontecem quando são incorporadas pelas pessoas. Por isso bato tanto na tecla do repetir, repetir, repetir até incorporar. E esse mantra vale também para o mundo corporativo. Porém, ele precisa ter respaldo nas instâncias superiores e nas lideranças.

Transformar discurso em ação exige consistência. Na prática, isso significa:
✔ Revisar processos e rotinas para reduzir sobrecargas.
✔ Dar exemplo através da liderança.
✔ Criar espaços de escuta real.
✔ Monitorar indicadores de saúde, clima e engajamento.

Não é sobre montar grandes programas com slogans bonitos. É sobre pequenas práticas que, somadas, constroem uma cultura mais humana, sustentável e produtiva.

(*) Treinadora de corpo e mente, com experiência em mentoria e práticas voltadas para saúde nas empresas