Artista não é escravo do público: o case LRR

César Munhoz (*)

90% do conteúdo que tenho consumido nos últimos 2 anos não está na Netflix. É dos canadenses do Loading Ready Run. Formado por Paul Saunders e Graham Stark há aproximadamente 20 anos, LRR (como é carinhosamente conhecido pelos fãs) é um dos grupos de comédia e streaming mais inovadores do mundo, não apenas pelo conteúdo que produz, mas também pela forma como gerencia seu negócio.

O primeiro contato que tive com eles foi pouco antes do início da pandemia. Provavelmente por conhecer meu gosto pela comédia surrealista do adult swim, bem como por conteúdo nerd de toda espécie (unboxings, tecnologia, história, piadas de gramática, etc.), o algoritmo do YouTube me recomendou um vídeo da série “The Panalysts”, em que a trupe do LRR faz comédia de improviso tentando resolver problemas imaginários.

Desde então, não paro mais de consumir tudo o que LRR produz: streaming de jogos de tabuleiro; game shows; o programa semanal Checkpoint, em que eles comentam, com humor ácido e minuciosamente bem escrito, os últimos acontecimentos na indústria de games; e meu favorito, o mensal Loading Ready Live, uma hora e meia de comédia absurdista transmitida ao vivo. Sem falar no “Desert Bus For Hope”, uma maratona anual de conteúdo ao vivo que movimenta gente do mundo todo para angariar fundos para a organização Child’s Play, que fornece brinquedos para hospitais. É muito conteúdo de qualidade dividido em quatro canais de YouTube, transmissões ao vivo no Twitch e todos os canais de distribuição de podcast.

Mas o que mais conquistou meu coração e meu cérebro de artista e empreendedor é a forma como o grupo gerencia o próprio negócio, fala abertamente sobre isso, e mantém um relacionamento absolutamente realista com a comunidade que consome seu conteúdo.

A renda que mantém o LRR vem prioritariamente do público, via assinaturas no Patreon, YouTube e Twitch (o conteúdo é gratuito, mas assinantes tem acesso a perks). O que vejo acontecendo na maioria dos casos que seguem esse padrão é que os conteudistas viram “escravos” do público, atendendo de maneira desesperada e insustentável a fome de conteúdo imposta pelos seus seguidores. Não é o caso do LRR. Quem consome o conteúdo do LRR reconhece nos artistas um grupo de humanos, que precisam comer, dormir, descansar (sim, produtor de conteúdo precisa descansar) e, acima de tudo, ter o direito de fazer o conteúdo que gosta, bem como deixar de fazer o conteúdo pelo qual perdeu o gosto. A cultura de conteúdo constante e linear não combina necessariamente com a natureza do artista. Todos sabemos o que acontece quando a chama do artista muda de foco e o mesmo tenta continuar produzindo aquilo que agradou seu público até então: conteúdo seco e profissionais com burnout.

Reconheço nos integrantes do LRR uma coragem fora do comum de afirmar esse posicionamento sem medo de perder seguidores ou números. Quem não gosta, vai embora. Quem fica, fica porque ama não só o conteúdo, mas também as pessoas que o produzem. Sabem que nessas pessoas há uma chama de artista, honram essa chama de artista e seguem essa chama seja para onde ela apontar. O resultado é uma comunidade sólida e sem promessas falsas, público e artistas felizes, e conteúdo de alto quilate. Estou cansado de ver artistas se vendo obrigados a produzir algo que detestam, em um ritmo alucinante e desumano, para manter o interesse de fandoms movidas por uma fissura infantil e voraz. Por esta e outras razões, LRR é um sopro de ar fresco na indústria do entretenimento. Siga-os em www.loadingreadyrun.com

(*) É artista, comunicador e produtor de ativos de entretenimento para projetos em 3 continentes. Mestre em Entertainment Business pela Full Sail University, com formação em Jornalismo, Publicidade e Cinema pela UTP, Planejamento de Comunicação Integrada pela FAO, Sound Design pela Escola São Paulo de Economia Criativa, AIMEC e Escuela Sonica Buenos Aires. César apresenta a live semanal “Arte, Entretenimento e Conexões” nos canais da Full Sail Brazil Community.

www.cesarmunhoz.com

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