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Presença vale mais que presente!

em Destaques
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Em meio ao aumento do consumo, especialista alerta que o Natal deve ser um momento de diálogo, consciência e construção de vínculos entre pais e filhos, muito além dos presentes comprados.

A ideia de que o Natal precisa ser marcado por compras, listas extensas e brinquedos da moda começa a ser cada vez mais questionada por educadores e famílias. Para Thiago Godoy, especialista em educação financeira e cofundador da Bem Educação, o maior presente que uma criança recebe na infância é o tempo de qualidade. Ele explica que momentos simples, como preparar um café da manhã sem pressa ou ler uma história antes de dormir, têm impacto emocional muito maior do que qualquer produto. Thiago comenta que, com sua filha pequena, percebe que o encanto pelo brinquedo novo é real, mas passageiro, enquanto a memória de montar um quebra-cabeça juntos permanece como experiência afetiva e formativa.

A ciência reforça esse argumento. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) apontam que estudantes de 15 anos cujos pais participam da vida escolar alcançam desempenho médio de 414,08 pontos em ciências. Entre os jovens que não contam com essa presença, a média cai para 357,19 pontos. Thiago destaca que isso não vale apenas para a escola, mas também para o desenvolvimento financeiro, emocional e social. Segundo ele, estar junto com os filhos, demonstrando interesse genuíno por suas rotinas, é uma forma concreta de educá-los também sobre escolhas e prioridades.

A participação dos pais no Brasil e o impacto na educação financeira
Os dados mostram que a presença dos pais ainda é desigual no país. O levantamento do Pisa revela que 50,2% dos estudantes brasileiros afirmam receber acompanhamento ativo da família em suas atividades escolares. Entre famílias com maior nível socioeconômico, o engajamento sobe para 63,2%. Já nos lares com menor nível financeiro, cai para 46%. Para Thiago, a lacuna é preocupante, porque a educação financeira começa dentro de casa, com práticas simples e acessíveis que não dependem de renda alta. Ele afirma que muitas famílias acreditam que conversar sobre dinheiro exige poder aquisitivo, mas o que realmente importa é incluir a criança nas pequenas decisões, explicar escolhas e demonstrar prioridade.
Thiago comenta que, quando uma família substitui presentes caros por tempo de convivência, está ensinando lições profundas sobre valor, consumo e afeto. Em suas palavras, a criança aprende que o melhor não é necessariamente o mais caro, mas aquilo que carrega significado. Ele reforça que as memórias mais marcantes não estão nos itens comprados, e sim nos momentos vividos em conjunto.

Desapegar do consumo e ressignificar o Natal
O Natal costuma ser um período de forte apelo comercial, o que pressiona famílias a gastar mais do que podem. Para Thiago, esse é justamente o cenário ideal para ensinar às crianças a diferença entre desejo e necessidade. Ele explica que muitos pais acreditam que precisam entregar o presente perfeito, geralmente caro ou tecnológico, por acharem que isso representa cuidado. No entanto, Thiago observa que, quando sua filha brinca ao ar livre ou faz perguntas curiosas sobre o mundo, fica evidente que a presença supera qualquer objeto comprado. Ele reforça que essa percepção ajuda pais e responsáveis a evitarem compras impulsivas motivadas pela culpa e pelo excesso de expectativas.

Além disso, o especialista aponta que a conversa sobre consumo consciente não deve ser imposta, e sim vivida no cotidiano. Ao incluir a criança no planejamento natalino, mostrando quanto a família pretende gastar, o que é possível e o que deve ser evitado, cria-se um exercício prático de responsabilidade e educação financeira. Thiago afirma que ensinar que não é preciso comprar tudo o que aparece nas propagandas é uma das formas mais poderosas de desenvolver senso crítico e autonomia.

Desconectar para conectar: o papel do tempo de qualidade
Com as rotinas cada vez mais aceleradas, muitos pais se veem conectados ao celular e ao trabalho mesmo durante momentos de descanso. Para Thiago, essa é uma das maiores barreiras para a construção de vínculos familiares. Ele defende que, no Natal, vale estabelecer um acordo simples: deixar o celular de lado e dedicar alguns minutos exclusivamente à convivência. Segundo ele, a verdadeira conexão emocional acontece quando os adultos conseguem estar inteiros, atentos e disponíveis.

Thiago relata que pequenas atitudes, como caminhar no fim da tarde, montar uma árvore de Natal juntos ou preparar uma receita em família, criam memórias afetivas mais significativas do que qualquer presente comprado. Ele explica que, quando a criança percebe que tem a atenção completa dos pais, ela se sente valorizada. Essa experiência fortalece a autoestima, segurança emocional e, de forma indireta, a própria relação com o dinheiro. Afinal, aprender que afeto não se compra é o primeiro passo para uma vida financeira equilibrada.

O presente de estar presente: uma proposta para este Natal
A proposta final de Thiago para as famílias brasileiras é simples e transformadora. Em vez de buscar o presente perfeito, ele sugere que os pais se preocupem em estar presentes. Olhar nos olhos, escutar histórias, brincar, caminhar de mãos dadas e deixar o celular um pouco de lado. Para ele, a infância passa rápido e, no futuro, as lembranças mais valiosas não serão as bonecas, carrinhos ou dispositivos eletrônicos, mas os momentos de conexão genuína.

Thiago afirma que, ao oferecer tempo e atenção, os pais entregam o que há de mais precioso: vínculo, afeto e presença. No Natal, esse gesto ganha força simbólica e se transforma em uma oportunidade de educar pelo exemplo. Segundo ele, educação financeira não é apenas sobre dinheiro, mas sobre escolhas, prioridades e valores. E nenhum valor é mais importante do que estar ao lado de quem se ama.